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TERIAM OS VIKINGS INFLUENCIADO A MODA NA IDADE MÉDIA?

Até recentemente, presumia-se que os tradicionais navegadores usavam roupas adequadas à sua reputação de barbárie, mas estudos recentes sugerem que esses peitos selvagens usavam broches e que os nórdicos eram fãs de “vestir-se para matar (dressing to kill)”.


Teriam os vikings influenciado a moda na idade média?
‘Idun e as maçãs', Donald A. Mackenzie, 1890. A deusa Idun é a guardiã das maçãs que conferem a juventude eterna. HERITAGE IMAGES / GETTY IMAGES

As crônicas saxônicas (e as da França e da Galícia) descrevem os vikings como genuinamente brutos. Rudes e selvagens, altos, com cabelos longos e barbas abundantes, olhos ferozes em rostos cobertos de cicatrizes, com os braços tatuados e corpos banhados de sangue, além das incisões rituais nos dentes. Testemunhá-los em ação devia ser um espetáculo aterrorizante.


Não há dúvida de que inspiravam pavor em suas vítimas. Para os monges e camponeses da Europa ocidental dos Séculos VIII e IX, os ataques vikings eram como eclipses solares, catástrofes de proporções bíblicas, conforme a horda demoníaca descia. Os invasores eram uma civilização com uma rica cultura oral, mas que não escreviam os próprios livros, então, os relatos repassados foram registrados do ponto de vista das vítimas. No entanto, publicações recentes como Children of Ash and Elm; uma História dos Vikings, de Neil Price, sugere que esses brutos eram, na realidade, consideravelmente mais refinados do que se pensava originalmente. Não a epítome da barbárie e da desordem, mas sim, de um povo que se orgulhava de sua aparência e tinha grande afinidade por estética, higiene e roupas da moda.


Price dedica um capítulo "desmitologizante" à elegância indumentária das tribos germânicas forjadas nos vales e fiordes da Escandinávia, no qual ele argumenta que a cultura deles era muito visual, obcecada pelas aparências e na qual pelo menos parte da elite política e financeira vestiam suntuosas roupas importadas (a seda era valorizada como um tesouro), de desenho primoroso e cores ricas. É verdade que as vestimentas de trabalho de um viking geralmente consistiam em uma túnica básica, um capacete de metal (apesar da crença popular, eles não tinham chifres), um colete de pele de carneiro e uma cota de malha. Entretanto, os escandinavos da época sabiam como se arrumar, quando tinham algo para comemorar ou alguém para impressionar.


Vestido para matar (dressed to kill)

Os vikings também se banhavam com frequência, senão diariamente, e mantinham os acessórios em evidência, frequentemente ostentando broches, anéis e pentes no cabelo, além de tatuagens, que estavam longe de serem manchas de tinta grosseiramente aplicadas, na verdade, obras de arte intrincadas com um significado ritual que hoje, infelizmente, sabemos pouco a respeito. Este lado da cultura viking e os seus costumes materiais passaram despercebidos por séculos, perdidos em meio a tantas histórias sangrentas de pilhagem e barbárie cerimonial, porém, recentes descobertas arqueológicas sugerem que foi de fato uma das sociedades mais elegantes da Europa durante o período de transição entre a Idade do Ferro e a Idade Média.


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Jacinto Antón, um jornalista que exerce uma fascinação vitalícia pelos vikings, disse que algumas nuances são necessárias. “Se estamos discutindo a elegância viking, temos que nos referir apenas ao topo da pirâmide social escandinava. Todos os demais estavam sujeitos à pobreza material da época e usavam sarja, artigos de lã e vestidos baratos, como faziam os camponeses franceses, godos e saxões”. É verdade, no entanto, que os vikings "não se encaixavam na imagem arquetípica dos bárbaros malcuidados". A cultura deles valorizava a higiene e o vestuário. “Mesmo os embaixadores muçulmanos nas cortes escandinavas ou os povos árabes que negociavam com eles às margens do Volga ou no Mar Cáspio, não puderam deixar de notar que eles se lavavam e prestavam muita atenção à higiene pessoal, além de usarem roupas elegantes”.


Também está bem documentado que em inúmeras escavações de tumbas de guerreiros, de acordo com Price, uma abundância de pentes, joias, máscaras e vestimentas sofisticadas foram descobertas. Em entrevista a Antón, Price explicou as razões dessas descobertas. “Os escandinavos tinham um certo medo do vazio, o qual compensavam colecionando objetos, desenhando e decorando, razão pela qual sua cultura material era tão rica. Não eram analfabetos, mas não conheciam livros. Até mesmo sua forma de escrever, em runas, era baseada mais no desejo de espetáculo visual, do que na criação de uma história”.


Além disso, os vikings viajaram extensivamente, “o que lhes permitiu evoluir para mestres da comunicação não verbal”. Price também disse que, na realidade, "sua aparência aterrorizante em batalha, que cobrir os seus corpos com tatuagens, lixar os dentes, aparecer do nada, cheirando mal e encharcados de sangue da cabeça aos pés em sangue, fazia parte de uma estratégia de intimidação e propaganda bélica projetada para semear o terror entre os seus inimigos”. Suas tatuagens, em particular, “eram ornamentos rituais de combate, não muito diferentes daqueles usados ​​pelos pictos ou celtas, e que ainda são usadas ​​hoje por sindicatos do crime organizado como a Yakuza no Japão”.


Pioneiros andróginos?

Price dá muita importância às recentes descobertas que contribuíram para alterar nossa mentalidade sobre os vikings. Um exemplo é uma estatueta folheada a prata descoberta em 2014 na cidade dinamarquesa de Haarby, perto de Roskilde, retratando o que se pensa ser um guerreiro de 800 d.C., vestido de forma ambígua (andrógino?), com uma anágua pregueada alcançando os seus tornozelos, uma extravagante camisa com decote em V, uma capa ornamentada e um colete longo, finalizado com uma saia coquete.


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Aparentemente vestidos como este, que hoje nos remetem ao feminino, eram usados ​​sobretudo, por homens da aristocracia guerreira, que também gostavam de xales esportivos, broches, túnicas de linho, tiaras e botas de couro. Esses homens de guerra geralmente eram vestidos com esmero antes de seus enterros ou da cremação de ostentação deliberada para exibir riqueza material, demonstrando até que ponto esses ditos bárbaros, valorizavam a sua aparência pessoal. De acordo com Price, pelo menos dois terços da fortuna de um chefe seriam gastos em seu funeral, que incluiria um banquete abundante e “open bar”. No máximo, a família herdaria o terço restante. O negócio da morte está longe de ser uma invenção moderna.


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Price também observa que os antigos nórdicos não estavam familiarizados com bolsos, ainda assim, tinham uma grande variedade de brocados, colares, joias, botões feitos de osso ou metal, chapéus de seda ou lã e roupas infantis coloridas, incluindo camisolas e túnicas. Eles até criavam roupas extravagantes como um par de calças largas forradas de couro, um último grito da passarela escandinava do Século IX, popularizado, ao que parece, por um dos heróis mais famosos dos vikings, Ragnar Lothbrok, cujo nome significa literalmente "calças peludas”. Tanto quanto por seus feitos militares, os contemporâneos de Lothbrok ficavam impressionados com a moda que ele popularizava, em um exemplo curioso de como o bom gosto e a elegância eram seriamente considerados (ou talvez ironicamente) entre esses guerreiros.


Antón destaca “a atenção especial que Price dedica à parte mais esquecida da Era Viking, as viagens dos Rus, mercadores e guerreiros suecos que abriram as rotas à Europa oriental, atravessando os grandes rios da Ucrânia, Rússia e Bielo-Rússia”. O jornalista observa que essas conquistas e descobertas no leste e no oeste foram “o trabalho de uma minoria, daqueles que eram denominados vikings (ou seja, piratas ou invasores). A maioria dos escandinavos da época foram simples agricultores, que trabalhavam sob uma economia de subsistência em uma atmosfera hostil, não muito diferente do resto do mundo conhecido naquela época”.


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Antón concorda com Price que faz pouco sentido tentar balançar o pêndulo da avaliação histórica dos vikings para vê-los como comerciantes cosmopolitas e empreendedores, que se preocupavam com boa comida e roupas elegantes. “Há livros publicados recentemente que apontam nessa direção, todavia, na minha opinião, eles se enganam. Claro, agora sabemos que os nórdicos não eram selvagens sedentos por sangue, ou pelo menos não só isso, tampouco, devemos procurar transformá-los em um paradigma de civilização ou de boas maneiras”.


Os vikings talvez não mereçam a má publicidade que seus mais ferrenhos inimigos procuravam dar-lhes, contudo sua reputação não pode ser lavada ou justificada de um ponto de vista ingênuo. Por mais limpas que possam ter sido suas túnicas, eles realizavam sacrifícios humanos, lançavam ataques não provocados a países que foram anteriormente parceiros comerciais e engajados no comércio de escravos. As mulheres escandinavas da época podiam se divorciar, herdar terras, títulos e lutar em combate, contudo, eram submetidas aos rigores de uma sociedade patriarcal e zelosamente misógina, na qual o infanticídio seletivo tinha como alvo as meninas e a violência sexual era comum, por isso proibidas por lei severas. “Eles não eram santos e nem demônios”, disse Antón. “Eles eram simplesmente pessoas muito distintas, com valores e uma forma de ver a vida que não entendemos hoje”.


Do Báltico a Istambul

A odisseia viking, como Price narra, é a história de um povo que aproveitou o colapso do Império Romano e a era subsequente de migrações em grande escala para se abrir para o mundo em um momento em que o terço norte da Eurásia estava sendo globalizado por meio de marchas forçadas. Eles eram tanto piratas, quanto exploradores e comerciantes, que construíram uma vasta rede de contatos, os levando a locais remotos como Bagdá, Constantinopla e as estepes da Ásia Central, bem como aos lugares do mapa nos quais eles são mais conhecidos por saquear e povoar, como a Grã-Bretanha e a Normandia, a Galícia, a Cantábria e as Baleares na Espanha, Itália e o norte de Marrocos. Suas viagens através do Atlântico Norte os levaram ao círculo Ártico várias vezes. Eles colonizaram as Hébridas e as Órcades, além de invadirem a Irlanda.


A popular série Vikings do History Channel, criada por Michael Hirst, segue esta série sem precedentes de aventuras que aconteceram entre os Séculos VIII e XI, usando as sagas islandesas (que foram escritas muitos anos depois na Idade Média) e outras fontes históricas e literárias, bem como as últimas descobertas arqueológicas para retratar a época (ainda que não necessariamente de forma fiel). Outras obras de ficção, como The Last Kingdom (Netflix), se conformaram com uma visão muito mais convencional. “Gosto da série de Hirst”, disse Antón. “E eu acredito que Price também a estime de alguma formo. A considero forte e bem documentada”.


Antón entende que Hirst, a quem também entrevistou recentemente, tenha tomado liberdades ao criar uma obra de coerência dramática. “Talvez, o que eu achei menos convincente, foi como uma das personalidades mais importantes das sagas nórdicas, Ivar, o Desossado, foi retratada. Seu nome era provavelmente o resultado de uma leve manqueira ou de impotência sexual. Na série, ele sofre de uma deficiência grave que o obriga a rastejar no chão e mesmo assim, se torna um dos maiores comandantes militares da época, algo altamente implausível em uma sociedade que valorizava a força física e a boa forma, acima de tudo”.


Por outro lado, a série de Hirst mostra, a sua maneira, como os vikings se vestiam de acordo com a ocasião, a exemplo de quando realizavam grandes festas, banquetes suntuosos embebidos em cerveja e álcool de cereais, celebrando as expedições bem-sucedidas em alto mar.


FONTE: El Pais

ECHARRI, Miquel; TRAIN, Rob. Were the Vikings fashion trendsetters of the Medieval age? El Pais. Madri, 15 de mar. de 2021. Disponível em: <https://english.elpais.com/usa/2021-03-15/were-the-vikings-fashion-trendsetters-of-the-medieval-age.html>. Acesso em: 16 de mar. de 2021. (Livremente traduzido pela Livros Vikings)


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