O legado viking: entre rituais modernos e mistérios arqueológicos recém-descobertos
- Livros Vikings

- 10 de dez de 2025
- 7 min de leitura
Uma descoberta única na Noruega e o renascimento do paganismo na Suécia mostram como a Era Viking continua viva, misteriosa e relevante até hoje

Índice
A Era Viking, frequentemente retratada sob a ótica da brutalidade e da conquista, possui uma dimensão de espiritualidade e complexidade social que continua a fascinar o mundo moderno.
Recentemente, dois eventos distintos — um ritual sagrado nas florestas próximas a Estocolmo e uma escavação de emergência na Noruega central — convergiram para ilustrar a dualidade desse legado nórdico.
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Enquanto comunidades contemporâneas buscam reviver antigas tradições como forma de lidar com as ansiedades do século XXI, a terra continua a revelar segredos funerários que desafiam a nossa compreensão sobre os rituais de morte dos antigos escandinavos.
Este artigo explora como o passado arqueológico e o presente espiritual se entrelaçam, revelando que a cultura nórdica não é apenas um capítulo encerrado nos livros de história, mas uma força viva e em constante evolução.
O renascimento da fé viking na Suécia Contemporânea
Em uma floresta de pinheiros nos arredores de Estocolmo, a cena poderia ser confundida com um piquenique comum, não fosse pelo altar de pedra coberto de musgo e pelas invocações aos deuses antigos.
O cenário compõe um ritual moderno de sacrifício, conhecido como blót, destinado a convocar Þórr (Thor), o deus do trovão e das colheitas. Diferentemente das representações cinematográficas sangrentas, as oferendas aqui são pragmáticas e modernas: salsichas industrializadas em formato de ferradura e biscoitos em forma de martelo, retirados de recipientes plásticos por participantes que variam de jovens com estética gótica a homens de meia-idade em trajes sociais.
Esse movimento, longe de ser uma mera encenação histórica, reflete um crescimento genuíno do neopaganismo na Escandinávia. Grupos formalmente reconhecidos, como a Nordiska Asa-Samfundet (NAC) e a Samfundet Forn Sed, estimam reunir cerca de 2.700 membros registrados e, somando suas redes sociais, mais de 16.000 seguidores.
Eles organizam desde cerimônias de nomeação e casamentos até funerais, reivindicando um espaço legítimo na sociedade sueca moderna.
A motivação para esse retorno às raízes da Era Viking é multifacetada. Para muitos, trata-se de uma resposta à "crise existencial" dos tempos modernos. Em um mundo assolado por incertezas econômicas e, principalmente, pela ansiedade climática, a restauração de uma religião quase extinta oferece uma âncora de estabilidade.
O animismo nórdico, teologia que reverencia a natureza como sagrada, ressoa profundamente com a preocupação atual sobre incêndios florestais, secas e inundações.
Ao contrário do nacionalismo do século XIX, que utilizou a imagem do guerreiro viking para curar feridas geopolíticas — como a perda da Finlândia para a Rússia —, o movimento atual tende a enfatizar o respeito pelo mundo natural e a busca pelo senso de comunidade.
A seriedade desse ressurgimento é evidenciada pela infraestrutura que vem sendo construída. Foi aprovado, pela primeira vez em quase um milênio, um novo cemitério pagão na cidade de Molkom, projetado com três montículos de grama em forma de navios, adjacente a um cemitério cristão.
Além disso, fundos significativos — mais de 200.000 coroas suecas (R$ 116,2 mil) — foram arrecadados para a construção de um templo perto de Gamla Uppsala, o antigo coração religioso do mundo viking.

Uma descoberta arqueológica viking sem precedentes na Noruega
Enquanto os suecos modernos reconstroem seus rituais baseados em fragmentos históricos e adaptações contemporâneas, o solo norueguês revelou, em novembro de 2025, um vislumbre autêntico e misterioso das práticas funerárias da Era Viking.
Em Val, na região de Bjugn, o detectorista amador Roy Søreng encontrou o que, inicialmente, parecia ser apenas um broche oval. No entanto, a chegada de especialistas do Museu de Ciências da NTNU e do Conselho do Condado de Trøndelag confirmou tratar-se de um sítio de importância excepcional.
A escavação revelou o túmulo de uma mulher do século IX, preservada de forma extraordinária. Seus adornos indicavam alto status: dois broches ovais que prendiam as alças de um vestido avental (o traje característico das mulheres nórdicas da época) e um terceiro broche anelar em sua vestimenta interior.
A análise preliminar sugere que ela era uma mulher livre, provavelmente a matriarca de uma importante fazenda local. Contudo, o que torna esse achado verdadeiramente singular não são as joias, mas um detalhe ritualístico nunca antes documentado em sepultamentos noruegueses desse período.
Sobre a boca da mulher, foram colocadas duas conchas de vieira, posicionadas com as partes curvas para fora e as bordas retas se encontrando, criando uma espécie de "bico" ou proteção. Ademais, ossos de pássaros, especificamente das asas, foram arranjados cuidadosamente ao longo do túmulo.
Tal ritual apresenta um enigma para a arqueologia viking. O uso das conchas e das asas de pássaros sugere uma simbologia complexa, possivelmente ligada à viagem da alma, à comunicação com o além ou a uma tradição local específica de Bjugn que se perdeu no tempo.
A proximidade desse túmulo com outro esqueleto do século VIII sugere que a área serviu como um cemitério familiar ou comunitário por gerações, indicando uma continuidade de ocupação e memória no local.
A urgência da escavação foi ditada pelo risco iminente de destruição devido à aragem agrícola moderna, o que levou o Ministério do Patrimônio Cultural a liberar fundos de emergência.
Esse ato de preservação permitiu não apenas a recuperação dos artefatos frágeis, mas também a coleta de amostras de DNA, que poderão em breve revelar se os indivíduos enterrados no local eram parentes, oferecendo uma janela genética para a vida rural na Noruega viking.
Simbolismo e natureza: a conexão cultural viking entre passado e presente
Ao justapor o ritual moderno na Suécia com a descoberta arqueológica na Noruega, percebe-se um fio condutor que atravessa os séculos: a profunda interconexão entre o povo nórdico e o mundo natural.
No caso da mulher de Bjugn, a natureza não era apenas um cenário, mas parte integrante da passagem para a morte. As conchas do mar e as asas das aves foram incorporadas ao corpo físico, sugerindo uma crença na transformação ou na necessidade de elementos naturais para navegar o pós-vida.
Esse achado arqueológico reforça a visão de que a espiritualidade da Era Viking era diversificada e profundamente enraizada no ambiente local — o mar e o céu estavam literalmente sobre sua boca e seu corpo.
Ironicamente, é exatamente essa reverência à natureza que impulsiona o renascimento do paganismo hoje. Como relatado na Suécia, o novo animismo nórdico surge como uma resposta espiritual à crise climática.
Os praticantes modernos, ao oferecerem maçãs e hidromel caseiro em altares de pedra, tentam recapturar essa relação simbiótica que a mulher de Bjugn vivenciou de forma tão intrínseca.
Entretanto, há uma distinção crucial. O ritual antigo era, muito provavelmente, uma prática de proteção ou transição socialmente aceita, regida por regras específicas que hoje nos escapam (como o significado exato das conchas). O ritual moderno, por outro lado, é uma reconstrução baseada na necessidade de identidade e estabilidade em uma "era caótica".
A mulher viking foi enterrada com objetos de sua realidade cotidiana e sagrada; os pagãos modernos utilizam objetos de sua realidade industrializada (biscoitos de pacote, salsichas) para tentar tocar o sagrado. Ambos, no entanto, buscam o favor dos poderes que governam o mundo natural, seja para uma boa colheita no século IX, seja para a chuva após um verão de seca no século XXI.
A geografia sagrada também continua a desempenhar um papel fundamental. Assim como o cemitério de Val, em Bjugn, serviu a gerações de uma mesma comunidade, os novos cemitérios pagãos na Suécia e na Dinamarca (onde um local similar existe desde 2009) buscam restabelecer o vínculo físico com a terra.
O desejo de ser enterrado em montículos em forma de navio, em Molkom, é uma tentativa direta de emular a estética e a solenidade dos ancestrais da Era Viking.

Desafios éticos e a preservação da memória viking
A interpretação e a reencenação da cultura da Era Viking não estão isentas de desafios éticos e históricos. A arqueologia enfrenta a corrida contra o tempo e o desenvolvimento moderno.
O túmulo da mulher com as conchas em Bjugn só foi salvo graças à intervenção rápida de entusiastas do detectorismo e de arqueólogos, antes que a agricultura intensiva o apagasse.
Isso levanta a questão: quantos rituais únicos e "não documentados" foram perdidos para sempre sob os arados da modernidade, deixando lacunas permanentes em nossa compreensão da diversidade cultural nórdica?
Simultaneamente, o renascimento pagão enfrenta o desafio de dissociar a herança viking de ideologias extremistas. O texto sobre a Suécia destaca como o simbolismo nórdico foi cooptado pelo nacionalismo do século XIX e, posteriormente, pelo Terceiro Reich e por grupos de extrema-direita atuais.
As comunidades de Forn Siðr esforçam-se para se posicionar como entidades inclusivas, com posturas antirracistas e focadas na herança cultural e ambiental, mas a sombra da apropriação indébita persiste.
O desafio para historiadores e entusiastas é equilibrar o fascínio romântico com a precisão factual. A descoberta em Bjugn nos recorda que "o viking" não é uma figura monolítica, mas composta por indivíduos com práticas locais distintas e surpreendentes.
As conchas na boca da mulher são um lembrete de que ainda sabemos muito pouco sobre a intimidade de suas crenças.
Por outro lado, o movimento moderno na Suécia nos lembra que a história não é estática. A “identidade viking” está sendo renegociada e reutilizada para atender às necessidades espirituais do presente.
Seja por meio da ciência forense, que analisa ossos antigos, seja por meio de rituais em florestas periurbanas, a busca pelo entendimento do homem do norte continua a moldar a identidade escandinava e a intrigar o mundo.
A Era Viking, portanto, não é apenas um período de tempo para ser estudado, mas um espelho no qual o presente continua a tentar se reconhecer.
Este artigo foi parcialmente criado por Inteligência Artificial (IA). Para mais notícias sobre achados arqueológicos e história, continue acompanhando a Livros Vikings. Somos um portal dedicado a trazer informações históricas e curiosidades sobre a Era Viking. Se você gostou deste artigo, compartilhe-o em suas redes sociais!
Referências
CHRISTIANSEN, Siri. Here in Sweden, the Vikings are back. And this time they’re searching for stability in a chaotic age. The Guardian, Londres, 17 nov. 2025. Disponível em: <https://www.theguardian.com/commentisfree/2025/nov/17/sweden-vikings-chaos-sacrifice-ritual-norse-pagan>. Acesso em: 09 dez. 2025.
RADLEY, Dario. Unusual Viking woman’s burial in Norway reveals a mysterious ritual. Archaeology Magazine, Long Island, 19 nov. 2025. Disponível em: <https://archaeologymag.com/2025/11/unusual-viking-woman-burial-in-bjugn-norway/>. Acesso em: 09 dez. 2025.
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Muito interessantes as novas descobertas bem como a preocupação em se pesquisar o passado a respeito dos Vikings. E fiquei surpreso e admirado de ler que o paganismo parece crescer novamente por lá. Talvez porque a religiosidade vem decaindo nos tempos modernos, pelo menos aqui no Brasil. Infelizmente, aqui, muitas pessoas estão se fastando das igrejas por razões diversas. Voltaremos a sermos pagãos aqui também? (EUGÊNIO, em 11 dezembro 2025 / 5a. feira).