Veja quem foi Ivar, o Sem Ossos (ou Ivar, o Desossado) e mais 5 curiosidades sobre os vikings
- Paulo Marsal
- 4 de dez. de 2019
- 9 min de leitura
Em quais deuses os vikings acreditavam? Como chegavam ao Valhalla? E as escoteiras (shield maidens – donzelas de escudo) vikings realmente existiam? Aqui estão seis coisas que você (provavelmente) não sabia sobre os vikings ...

Eles vinham, invadiam e saqueavam e depois saíam — apenas para voltar na maré seguinte e fazer tudo de novo.
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Os vikings da Escandinávia que assolaram a Inglaterra (e depois a governaram) entre o final do século VIII e o século XI foram famosos como guerreiros brutais e barbudos, mas eles viviam como um povo?
Índice
Aqui estão seis coisas que você talvez não saiba sobre os nórdicos…
1) Quem eram os vikings?
Quando os estudiosos escrevem sobre os vikings, eles geralmente se referem aos grupos de pessoas das terras escandinavas, ou seja, da Noruega, Suécia e Dinamarca.
Enquanto grande parte da Europa era cristã no século VIII, essas áreas não eram. No entanto, nem todos foram 'viking', muitos continuaram a cultivar a terra ou podiam retornar à agricultura após alguns anos de invasão, enquanto outros, como anglo-saxões e francos, podiam ser 'viking'.
Não se tratava de pertencer a uma "raça" ou mesmo a uma religião. Ser um viking era seguir uma atividade.
Isso se tornou possível por causa do desenvolvimento da tecnologia de navios e foi incentivada pela crescente força dos chefes escandinavos.
Qual a melhor maneira de melhorar uma reputação do que levar seguidores em incursões para adquirir mais riquezas?
Essa redistribuição bastante desonesta da riqueza estimulou uma rede de intercâmbio internacional, o que significava um meio de vida, o qual poderia ser ganho, misturando comércio e invasão. Os vikings podiam ser invasores um dia e no dia seguinte vendedores de seus ganhos ilícitos.
2) Em que religião os vikings acreditavam?
As crenças pagãs dos Vikings, cujas origens parecem estar em um período muito anterior à Era Viking, incluem um panteão de deuses, de Odin, o Pai de Todos, até o deus do trovão Thor, e Freyja, uma poderosa divindade feminina, cujo casaco de penas de falcão lhe dava a capacidade de voar.
Foram contadas histórias sobre os deuses que habitavam a fortaleza de Ásgard, cujo mundo estava ligado ao reino terrestre pela ponte do arco-íris (Bifröst).
Os deuses lutavam contra os gigantes, enganavam e roubavam, apaixonavam-se e desapareciam. Na Mitologia Nórdica, o mundo terminaria em uma batalha final e pré-ordenada no 'Crepúsculo dos Deuses' — o Ragnarök.
Os vikings conseguiram adaptar alguns desses mitos às visões cristãs do Dia do Juízo Final, e a arte viking, particularmente no século X, refletia a mistura de cristianismo com crenças pagãs.
No entanto, devemos ter em mente que muito do que está escrito sobre as crenças vikings pagãs vem no Século XIII, pela pena de Snorri Sturluson, um islandês cristão que estava interessado em entender as crenças de seus ancestrais pagãos, de uma maneira que minimizasse muitas variações locais das crenças e práticas religiosas.
Ele diz pouco sobre as influências do povo sami (escandinavos indígenas) e as práticas xamânicas, que os especialistas só começaram a apreciar nos últimos 30 anos, e as suas semelhanças com a cosmologia viking, as quais podem ser o resultado do contato com o cristianismo ou mesmo das adaptações das histórias do próprio Snorri.
3) O que era Valhalla e como os Vikings chegavam lá?
Para um viking, quais seriam as duas coisas mais desejadas na vida após a morte no Valhalla, o salão dos guerreiros mortos? Festa e luta, é claro.
Se escolhido pelas míticas Valquírias ao morrer, um guerreiro nórdico seria recebido pelo deus Odin em Valhalla, um salão magnífico com um telhado coberto de escudos de ouro, lanças para vigas e tão grandes que 540 portas cobriam suas paredes.
Os mortos homenageados, conhecidos como os Einherjar, passavam o dia todo aprimorando suas habilidades de batalha, uns contra os outros, em preparação para Ragnarök — o fim do mundo —, e todas as noites suas feridas seriam curadas magicamente e festejariam como só os vikings poderiam.
Seus chifres (driking horn) nunca se esvaziaram graças a Heidrun, uma cabra do telhado de Valhalla que comia de uma árvore especial e produzia o melhor hidromel, e sempre havia carne suficiente, provinda do javali chamado Sæhrímnir, que voltava à vida após cada abate, para que pudesse ser cozido repetidamente (coitado).
Para se juntar aos Einherjar, um Viking tinha que morrer em batalha, e mesmo assim, eles tinham apenas 50% de chance.
A metade não escolhida para ir ao Valhalla, ia para o campo da deusa Freya, para que eles pudessem ser oferecidos às mulheres que morreram para serem as suas companhias.
Quanto aos idosos ou doentes, eles iam para um submundo chamado Hel. Não era tão ruim quanto o nome sugere, embora houvesse um lugar especial de miséria reservado para os assassinos, adúlteros e quebradores de juramentos, onde um dragão gigante mastigava repetidamente os seus cadáveres.
4) As escoteiras (shield maidens – donzelas de escudo) vikings existiam?
Desculpas aos fãs da série de sucesso Vikings, mas os historiadores simplesmente não concordam integralmente quanto a existência de mulheres nórdicas guerreiras, como Lagertha.
Embora existam histórias de donzelas de escudo, ou skjaldmaer, em relatos históricos, quase todos podem ser descartados como confiáveis, sendo apócrifos, alegóricos ou mais mitos do que reais.
Ainda assim, pistas tentadoras e descobertas misteriosas — incluindo artefatos mostrando mulheres carregando espadas, lanças e escudos, aumentam a ideia de que as mulheres vikings entravam realmente em batalha ao lado dos homens.
No século XII, o historiador dinamarquês Saxo Grammaticus escreveu sobre mulheres na Dinamarca que procuravam "tão zelosamente serem habilidosas em guerra que se podia pensar que eram sexistas".
Neste ínterim, em 2017, os arqueólogos descobriram que um túmulo de guerreiro do Século X, cheio de armas, na verdade pertencia a uma mulher.
5) Quem foi Ivar, o Desossado?
A trajetória de Ivar, o Desossado (Ívarr hinn Beinlausi), situa-se na complexa fronteira entre a literatura lendária e a crônica factual. O que a cultura popular frequentemente trata como verdade absoluta é, na realidade, um rico mosaico de propaganda política, hagiografia cristã e poesia escandinava.
O Grande Exército Pagão e a Conquista de York (865 d.C.)
A Invasão Estratégica: em 865 d.C., Ivar, ao lado de seus irmãos Ubba e Halfdan, liderou o chamado Grande Exército Pagão (mycel hæþen here) em uma invasão à Inglaterra anglo-saxônica. Diferente dos saques sazonais anteriores, esta campanha tinha o objetivo claro de conquista territorial permanente e colonização;
A Queda de York: o exército desembarcou na Ânglia Oriental e marchou rapidamente para o norte, aproveitando-se de uma guerra civil na Northúmbria entre os reis Osberht e Ælla. Em novembro de 866 d.C., os vikings capturaram a cidade de York. A tomada ocorreu de forma estratégica no Dia de Todos os Santos, momento em que os defensores locais estavam reunidos e desarmados dentro das igrejas. Posteriormente, a cidade foi rebatizada como Jórvik e transformou-se no principal núcleo do poder viking na Inglaterra;
O Mito do Couro de Boi: embora as sagas islandesas tardias afirmem que Ivar usou de astúcia para obter a terra de York de forma pacífica — cortando um couro de boi em tiras finas para cercar uma área vasta —, os registros históricos contemporâneos demonstram que a conquista foi puramente militar e violenta.
As Execuções Reais: Desmistificando a Tortura e o Martírio
O documento traz correções fundamentais sobre a forma como os inimigos de Ivar, os reis Edmund e Ælla, morreram:
1) O Martírio de São Edmund (Ânglia Oriental)
O seu texto menciona que o Rei Edmund foi espancado, amarrado a uma árvore, alvejado por flechas e decapitado. Historicamente, há uma evolução narrativa que relativiza essa versão:
A Realidade: a Crônica Anglo-Saxônica (escrita por volta de 890 d.C., poucos anos após o evento) registra de forma factual que Edmund foi simplesmente morto em combate direto contra os vikings em Thetford;
A Construção da Lenda: os detalhes gráficos de tortura (flechas e decapitação) só surgiram quase um século depois, na obra Passio Sancti Eadmundi (c. 985–987 d.C.) de Abbo de Fleury. O objetivo era puramente teológico: criar uma hagiografia que desenhasse Edmund como um mártir cristão santo, assemelhando seu sacrifício ao de São Sebastião, para unificar a identidade inglesa contra novas invasões.
2) A Águia de Sangue em Ælla da Northúmbria
A brutal execução de Ælla através da "Águia de Sangue" — em que a caixa torácica é aberta e os pulmões são puxados para fora — é um dos temas mais debatidos pela historiografia moderna. Existem duas correntes explicativas principais:
Invenção Poética e Erro de Tradução: estudos iniciados pela acadêmica Roberta Frank indicam que o ritual pode nunca ter existido. Ele teria sido fruto de uma má interpretação de metáforas poéticas (kennings) por parte de escribas cristãos nos séculos XII e XIII. Em poemas mais antigos, a expressão "marcar as costas com uma águia" significava apenas que o corpo do inimigo derrotado foi abandonado no campo de batalha para ser dilacerado por aves de rapina (carniceiros);
Viabilidade Fisiológica e Prática: por outro lado, um estudo anatômico interdisciplinar publicado em 2022 determinou que o procedimento era cirurgicamente possível com ferramentas da Era Viking, mas com uma ressalva biológica importante: a vítima morreria por choque hipovolêmico ou asfixia nos primeiros segundos da abertura torácica. Portanto, qualquer "movimento de asas" com os pulmões em um indivíduo vivo seria biologicamente impossível. Se o ato de fato ocorreu, tratou-se de uma mutilação ritualística pós-morte para desonrar o cadáver.
O Enigma de "O Desossado"
A origem do apelido de Ivar (beinlausi em nórdico antigo) permanece ambígua porque a palavra bein pode significar tanto "osso" quanto "perna". A tabela abaixo sintetiza as principais hipóteses históricas, filológicas e médicas propostas:
Hipótese | Mecanismo e Fundamentação | Crítica Histórica |
|---|---|---|
Condições Genéticas (Osteogenesis Imperfecta ou Ehlers-Danlos) | Sugere fragilidade óssea extrema (ossos de vidro) ou hipermobilidade elástica, justificando o relato de que precisava ser carregado. | Improvável que um indivíduo severamente incapacitado liderasse e sobrevivesse em uma sociedade marcial darwinista, embora a literatura nórdica (Havamál) mostre que havia espaço para a liderança intelectual de pessoas com limitações motoras. |
Impotência Masculina | O termo seria uma metáfora ou eufemismo sarcástico para a disfunção erétil ou a ausência de descendência. | O texto Ragnarssona þáttr diz que ele morreu sem herdeiros por não ter "luxúria", mas isso contraria os anais irlandeses, que atestam que ele deixou filhos. |
Metáfora Náutica | Nos dialetos arcaicos noruegueses, beinlaus era um termo eufemístico para se referir ao vento ou a correntes de ar frias. | Ivar era um mestre da navegação rápida, mas a ligação direta entre o tabu náutico e o apelido não está explícita nas sagas principais. |
Erro de Tradução do Latim | Monges teriam confundido o termo latino Exosus (o Odiado, o Cruel) com a expressão híbrida ex-osus (sem ossos). | Difícil de sustentar, pois o apelido aparece exatamente igual em fontes vernáculas nórdicas nativas, sem influência latina direta. |
A Identidade Histórica: Ímar de Dublin
O maior enriquecimento trazido pela historiografia moderna é a identificação de Ivar com uma figura histórica real bem documentada fora da Inglaterra: Ímar de Dublin.
Os registros provam uma sincronicidade cronológica perfeita. Enquanto Ivar "desaparece" das crônicas inglesas após 870 d.C., Ímar surge nos Anais de Ulster liderando os vikings na Irlanda e na Escócia.
Ele estabeleceu um triunvirato de governantes em Dublin, aliou-se a reis gaélicos locais e sitiou com sucesso a fortaleza real de Dumbarton Rock na Escócia em 870 d.C..
Ímar faleceu em 873 d.C. devido a uma "repentina e terrível doença" — o que reforça a teoria de que seu apelido de "Desossado" poderia ser o reflexo tardio de uma enfermidade progressiva e paralisante.
Ele deu origem à dinastia Uí Ímair (os descendentes de Ivar), que dominou o Mar da Irlanda e o norte da Inglaterra por gerações.
6) Quando a Era Viking terminou?
Dizem tradicionalmente que a era de invasão e pilhagem dos vikings, que começou na Grã-Bretanha com o saque de Lindisfarne em 793 d.C., terminou com o fracasso da invasão de Harald Hardrada em 1066.
No entanto, a influência viking se espalhou do Oriente Médio para a América do Norte e não pôde ser desfeita por uma única derrota em batalha.
Ao mesmo tempo em que Hardrada estava se recuperando da lesão no pescoço em Stamford Bridge, um conquistador normando se lançava. Seu líder, e futuro rei da Inglaterra, era William, o tataraneto de Rollo, um viking.
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Referências
ANASTASI, Luciano. Ivar's invasion: the legacy of a Viking. Medieval History, [S. l.], [s.d.]. Disponível em: https://historymedieval.com/ivars-invasion-the-legacy-of-a-viking/. Acesso em: 29 maio 2026.
FULLER, H.R; GATES, M.A; MURPHY, L.J; WILLIAN, P.L.T. An anatomy of the Blood Eagle: the practicalities of Viking torture. Speculum, [S. l.], v. 97, n. 1, 2022. Disponível em: https://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/717332. Acesso em: 29 maio 2026. (Nota: Ano extraído do documento de contexto).
IRVINE, Amy, 10 Facts about Viking warrior Ivar the Boneless. History Hit, [S. l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.historyhit.com/facts-about-ivar-the-boneless/. Acesso em: 29 maio 2026.
LEWIS, Robert. Ivar the Boneless: biography, battles, & facts. Britannica, [S. l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Ivar-the-Boneless. Acesso em: 29 maio 2026.
WHO was Ivar the Boneless? Plus 6 more Vikings facts you should know. History Extra, Londres, 3 dez. 2019. Disponível em: https://www.historyextra.com/period/viking/who-was-ivar-boneless-vikings-shield-maidens-what-valhalla-facts/. Acesso em: 4 dez. 2019.
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