O legado viking reimaginado: tesouros, sepulturas e mitos desfeitos
- Livros Vikings

- 11 de nov. de 2025
- 7 min de leitura
Novas descobertas arqueológicas revelam uma Era Viking mais complexa, conectada e culturalmente diversa do que imaginávamos

Índice
Quando pensamos na palavra "viking", a imagem que surge na mente popular é quase instantânea: um guerreiro robusto, de capacete (provavelmente com chifres, embora saibamos ser um mito) e machado em punho, saltando de um dracar para saquear mosteiros indefesos.
Essa imagem, embora potente e duradoura, é terrivelmente incompleta. Ela reduz séculos de história, comércio, exploração e complexidade social a um único estereótipo: o do invasor bárbaro.
Felizmente, a arqueologia moderna, auxiliada por novas tecnologias de datação e análise, está sistematicamente desconstruindo esse monólito. Cada nova escavação, cada tesouro redescoberto e cada sepultura analisada revela nuances que complicam, e enriquecem, nossa compreensão desse período.
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A Era Viking não foi um bloco estático de história, mas um período dinâmico de imensa transformação, tanto para os nórdicos quanto para aqueles com quem interagiram.
Recentes descobertas em locais tão distintos quanto a Suécia, Escócia e as Ilhas Orkney, juntamente com a reanálise de práticas funerárias, estão pintando um retrato muito diferente.
Estamos descobrindo uma Era Viking marcada por transições sociais profundas, redes de comércio incrivelmente globalizadas, processos de colonização mais complexos do que a simples conquista, e uma diversidade ritualística que desafia qualquer generalização fácil.
Este artigo mergulha nessas descobertas de ponta para explorar o que elas realmente nos dizem sobre o multifacetado legado viking.

A complexa transição da “sociedade viking” na Suécia
A Suécia, frequentemente vista como um dos berços da Era Viking, está fornecendo algumas das evidências mais claras de que essa “sociedade” estava longe de ser estática.
Descobertas recentes de tesouros enterrados revelam uma população em meio a uma profunda transição econômica, social e possivelmente religiosa. Esses achados não são apenas pilhas de riqueza, mas sim cápsulas do tempo de um momento de mudança.
Arqueólogos têm desenterrado coleções de moedas de prata, joias e artefatos metálicos que exibem uma mistura fascinante de influências. Foram encontradas moedas árabes (dirhams), indicando o comércio de longa distância em direção ao leste, ao lado de moedas e joias de estilo frâncico ou anglo-saxão.
Mais importante, vemos os primeiros indícios de uma padronização econômica local. A presença de prata cortada e lingotes sugere uma economia que se afastava do simples escambo e se aproximava de um sistema baseado em peso e valor mais abstrato.
Essa transição econômica reflete uma mudança social maior. O acúmulo e o enterro desses tesouros podem indicar instabilidade, mas também a ascensão de elites locais que controlavam o comércio e a produção.
Neste sentido, vemos os primeiros passos em direção às estruturas de reino mais centralizadas que caracterizariam a Escandinávia medieval posterior.
Os próprios artefatos também sugerem uma transição espiritual. A iconografia encontrada em algumas joias e pedras rúnicas dessa época começa a misturar símbolos pagãos tradicionais, como o Martelo de Thor (Mjölnir), com novos motivos que podem ser interpretados como influências cristãs.
Isso não significa uma conversão súbita, mas um período de sincretismo e adaptação. A sociedade da Era Viking sueca estava em fluxo, negociando seu lugar entre suas antigas tradições e as novas realidades econômicas e religiosas que vinham do exterior.

O tesouro viking de Galloway e a rede global nórdica
Se as descobertas suecas mostram uma sociedade viking em transição interna, o espetacular "Tesouro de Galloway", encontrado na Escócia, revela a impressionante escala externa das suas conexões.
Descoberto em 2014 e agora em exibição após meticulosa conservação, este tesouro é considerado um dos mais ricos e diversificados já encontrados nas Ilhas Britânicas. Ele funciona como um "instantâneo" da riqueza e dos horizontes globais de um indivíduo de alto status da Era Viking.
O que torna o Tesouro de Galloway tão extraordinário não é apenas a quantidade de ouro e prata, mas sua diversidade. Ele contém mais de 100 objetos, incluindo lingotes de prata, broches, braceletes de ouro e um pote de prata carolíngio, que por si só já era uma antiguidade valiosa quando foi enterrado.
Dentro deste pote, os conservadores encontraram um conjunto de itens ainda mais delicados e exóticos.
Estamos falando de contas de vidro, pedras preciosas, e — o mais raro de tudo — fragmentos de têxteis, incluindo sedas do Oriente Médio ou Bizâncio. Havia também um broche de prata anglo-saxão, itens de origem irlandesa e uma ave de ouro única.
Este tesouro destrói a ideia do viking apenas como um saqueador. Embora parte da riqueza tenha sido, sem dúvida, obtida através da violência, a coleção como um todo fala de algo mais: comércio, coleta e apreciação por itens exóticos e de alta qualidade artesanal de todo o mundo conhecido. A seda bizantina não foi obtida em um ataque a um mosteiro escocês.
O Tesouro de Galloway é a prova material da rede viking. Esses navegadores não estavam isolados; eles eram os conectores de sua época, unindo o mundo islâmico, o Império Bizantino, as Ilhas Britânicas e a Escandinávia em uma vasta teia de intercâmbio.
O proprietário deste tesouro não era apenas um guerreiro; era um cosmopolita da Era Viking.

O mito da extinção picta e a nova história viking em Orkney
Uma das narrativas mais sombrias e persistentes da Era Viking é a de genocídio cultural. Em nenhum lugar isso é mais proeminente do que na história das Ilhas Orkney, ao norte da Escócia.
A história tradicional, baseada em interpretações de sagas nórdicas, é que os vikings chegaram, viram, conquistaram e, no processo, exterminaram ou expulsaram completamente os habitantes locais, conhecidos como Pictos. A cultura picta, sua língua e suas tradições teriam desaparecido sob a bota nórdica.
No entanto, novas datações por radiocarbono em sítios arqueológicos em Orkney estão desmantelando vigorosamente esse mito. Ao reexaminar ossos e artefatos de locais tradicionalmente pictos e de locais considerados "primeiras" fazendas vikings, os arqueólogos descobriram algo muito mais interessante do que um massacre.
Os dados sugerem um período significativo de sobreposição e coexistência. As datações mostram que as estruturas sociais e os assentamentos pictos não desapareceram abruptamente com a chegada dos nórdicos por volta de 800 d.C.
Em vez de uma substituição violenta e rápida, parece ter havido um período de interação, coabitação e mistura cultural que pode ter durado gerações.
Isso muda tudo. Sugere que a transformação de Orkney em um poderoso condado nórdico não foi apenas um ato de conquista militar, mas um processo social complexo. É provável que tenha havido casamentos mistos, adoção de costumes e uma fusão gradual de identidades.
Os Pictos não "desapareceram" no sentido de terem sido todos mortos ou expulsos; é mais provável que eles tenham se tornado parte da nova sociedade nórdica-gaélica que emergiu.
Essa descoberta nos força a repensar o que significa "colonização" viking. Em vez de um modelo simples de invasão e substituição, devemos agora considerar um espectro de interações, incluindo integração e assimilação cultural.

Sepulturas atípicas e a diversidade ritualística viking
Finalmente, voltamos nosso olhar para o aspecto mais pessoal da vida viking: a morte e o enterro. Assim como tendemos a estereotipar suas vidas, também generalizamos seus rituais funerários.
Pensamos imediatamente em funerais em navios em chamas (uma raridade, na verdade) ou em grandes túmulos cheios de armas para uma viagem a Valhalla. Embora enterros com armas e bens suntuosos fossem comuns para a elite, descobertas recentes de sepulturas "atípicas" mostram uma diversidade ritualística muito maior.
Arqueólogos têm encontrado enterros que desafiam as normas. Por exemplo, sepulturas que parecem misturar ritos pagãos e cristãos, com o corpo orientado na tradição cristã (leste-oeste), mas ainda assim acompanhado por bens funerários pagãos, como amuletos ou pequenas armas.
Isso reflete as sociedades em transição mencionadas na Suécia, onde a conversão não foi um evento de um dia, mas um processo lento de negociação espiritual.
Outros enterros "estranhos" incluem indivíduos sepultados em locais inesperados, fora de cemitérios conhecidos, ou com bens que não correspondem ao seu gênero ou status aparente.
Por exemplo, enterros em barcos (uma prática de alto status) encontrados em locais inusitados, ou sepulturas que contêm artefatos de culturas distantes, talvez refletindo a vida de um indivíduo que viajou muito, como o dono do Tesouro de Galloway.
Essas sepulturas atípicas são cruciais porque nos lembram que a "sociedade viking" não era um bloco único e homogêneo.
As práticas funerárias variavam enormemente com base na geografia (um viking na Suécia não era enterrado da mesma forma que um na Islândia ou na Escócia), na classe social, na época e, talvez, nas crenças pessoais.
Cada sepultura atípica é um lembrete de que por trás do rótulo "viking" existiam indivíduos e comunidades distintas, cada um navegando seu mundo de maneiras únicas.
Conclusão
A figura do viking como um saqueador monolítico está, merecidamente, dando lugar a uma imagem muito mais rica e humana. As evidências arqueológicas recentes, desde os tesouros em transição na Suécia até as redes globais reveladas em Galloway, da coexistência em Orkney à diversidade ritual nas sepulturas, convergem para um único ponto: a complexidade.
A Era Viking foi um período de dinamismo extraordinário, impulsionado por pessoas que eram, simultaneamente, comerciantes, exploradores, colonos, artesãos e, sim, às vezes guerreiros.
Eles não apenas impactaram o mundo ao seu redor; eles foram profundamente impactados por ele, absorvendo influências, adaptando-se a novas realidades e misturando-se com outras culturas. O verdadeiro legado viking não está na imagem simplista do invasor, mas na sua capacidade de navegar—literal e metaforicamente—um mundo em constante mudança.
Este artigo foi parcialmente criado por Inteligência Artificial (IA). Para mais notícias sobre achados arqueológicos e história, continue acompanhando a Livros Vikings. Somos um portal dedicado a trazer informações históricas e curiosidades sobre a Era Viking. Se você gostou deste artigo, compartilhe-o em suas redes sociais!
Referências
CARVAJAL, Guillermo. New datings in the Orkney Islands dismantle the myth of the Picts extermination by the Vikings. La Brújula Verde. Disponível em: https://www.labrujulaverde.com/en/2025/11/new-datings-in-the-orkney-islands-dismantle-the-myth-of-the-picts-extermination-by-the-vikings/. Acesso em: 11 nov. 2025.
GALLAGHER, Declan. Archaeologists find 'unusual' Viking burials and artifacts. Men's Journal. Disponível em: https://www.mensjournal.com/news/archaeologists-unusual-viking-burials-artifacts. Acesso em: 11 nov. 2025.
PRIZED Viking Age treasure from Galloway Hoard on display for first time. Sky News. Disponível em: https://news.sky.com/story/prized-viking-age-treasure-from-galloway-hoard-on-display-for-first-time-13467923. Acesso em: 11 nov. 2025.
RADLEY, Dario. Viking treasures in Sweden reveal a society in transition. Archaeology Magazine. Disponível em: https://archaeologymag.com/2025/11/viking-treasures-in-sweden-reveal-a-society-in-transition/. Acesso em: 11 nov. 2025.
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A cada nova descoberta os estudiosos vão aprofundando os seus conhecimentos e, em muitos casos, vem novas conclusões. Vejo que os estudos vão alterando lentamente aquela imagem que os filmes fazem dos vikings: maus, invasores, guerreios assassinos, saqueadores etc. Que as novas descobertas de tesouros antigos bem guardados nos tragam mais à realidade dos extintos povos Vikings. (Eugênio, em 12 novembro 2025 / 4a. feira).