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História Nórdica: Pré-História e Idade da Pedra

  • Foto do escritor: Denise Costa
    Denise Costa
  • há 1 dia
  • 8 min de leitura

Uma imersão na aurora da civilização nórdica: conheça as culturas primitivas, o Mesolítico e a transição para a agricultura na Escandinávia


Livros Vikings | História Nórdica: Pré-História, Idade da Pedra
Reconstrução representando tribo de seres humanos durante a Idade da Pedra Escandinava — Crédito da Imagem: Linda Wåhlander, The Swedish History Museum/SHM (CC BY 4.0)

Neste artigo, você verá


A popularização da temática escandinava através de filmes, games, séries, HQs e outras mídias costuma despertar especial curiosidade no público em geral sobre o período conhecido como Era Viking (entre os séculos VIII e XI).


No entanto, há enormes mal-entendidos sobre este período, e gigantesca defasagem a respeito dos demais momentos da história nórdica.


O Projeto Cultural Caminho Nórdico, parceiro da Livros Vikings, usualmente foca seu trabalho no tema religioso, abordando especificamente o Forn Siðr (Antigo Costume Nórdico, Antiga Fé Nórdica) e temas correlatos.


No entanto, o projeto preserva e divulga a cultura nórdica de forma geral, abordando sua história, a qual é essencial para o entendimento da formação dos povos escandinavos, inclusive no aspecto religioso.


Com o intuito de despertar interesse no estudo da História Escandinava em geral é que surge esta série de breves artigos.


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Para entender um povo, sua cultura, língua, fé e costumes, é essencial compreender o processo histórico de formação.


Para todos os que têm genuíno interesse na cultura nórdica, convidamos a acompanhar esta e as próximas publicações sobre História Escandinava.


História Nórdica, Parte 1: Pré-História, a Idade da Pedra

Este artigo aborda a Idade da Pedra (entre 12.000 e 1.800 AEC). É importante sabermos que antes do último período glacial no norte da Europa e na Escandinávia, os locais que hoje conhecemos como países nórdicos não eram habitados.


O recuo das geleiras possibilitou que a vegetação de tundra se formasse, com muitas bétulas árticas e sorveiras, dentre outras plantas.


Uma observação de grande importância é necessária: quando traçamos linhas do tempo de períodos históricos, estamos falando de datas aproximadas. Os povos não acordam de um dia para outro em um novo período histórico.


Existem processos de formação e desenvolvimento; portanto, muitas datas são mencionadas como aproximadas, para que saibamos do contexto temporal com fins didáticos.


Pré-História Nórdica, a Idade da Pedra: Cultura de Ahrensburg (aprox. 10.900–9.700 AEC)

No contexto acima descrito, surge a Cultura de Ahrensburg, que marca o início da Idade da Pedra Nórdica durante o Paleolítico Superior, notavelmente nas regiões da Jutlândia e Escânia.


Os povos que viveram neste período eram caçadores-coletores nômades que guiavam suas rotas seguindo as renas, as quais caçavam.


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Estes primeiros habitantes da região da Escandinávia eram vindos das planícies da Europa Central (Alemanha, Países Baixos e adjacências).


Pré-História Nórdica, a Idade da Pedra: Cultura de Bromme (aprox. 11.600–9.800 AEC)

A Cultura de Bromme (também chamada de Cultura Lyngby) sucede a Cultura de Ahrensburg.


Em comparação ao clima enfrentado pela cultura anterior, agora as temperaturas são consideradas mais quentes e amenas, ainda que tenham fases mais frias.


A Cultura de Bromme possui achados relevantes nas regiões da Zelândia e Jutlândia, dentre outras.


A população continuava sendo caçadora e nômade, mas inicia os primeiros povoamentos com presença contínua no sul da Escandinávia (sem característica sedentária).


Brommekulturen repræsenterer de første permanente bosættelser i det sydlige Skandinavien efter istiden. Selvom befolkningen fortsat var nomadisk, etablerede de kontinuerlig tilstedeværelse i regionen (PEDERSEN, 2023) — [Tradução livre]: A cultura de Bromme representa os primeiros assentamentos permanentes no sul da Escandinávia após a Era do Gelo. Embora a população tenha permanecido nômade, ela estabeleceu uma presença contínua na região.

As armas desenvolvem-se para lâminas e lascas maiores do que as anteriormente produzidas e são feitas de sílex. A alimentação se diversifica, incluindo alces e castores, por exemplo.


Pré-História Nórdica, a Idade da Pedra: Cultura de Maglemose (aprox. 9.000–6.400 AEC)

A Cultura de Maglemose marca a transição para o Mesolítico com muitas transformações: o degelo da última glaciação finalmente terminou no sul nórdico, dando lugar a florestas com bétulas e pinheiros, e, posteriormente, carvalhos.


O povo segue com as atividades de caça e coleta, mas agora no ambiente florestal descrito, e também passa a explorar a pesca em rios e regiões costeiras.


Veados, javalis, peixes e aves aquáticas passam a ser consumidos. Dentre os objetos desenvolvidos, estão machados de ossos, ganchos de pesca e agulhas.


É de destacar o desenvolvimento desta cultura nas regiões da Jutlândia e Escânia.


Ao mesmo tempo, ocorre a Cultura Fosna-Hensbacka no litoral oeste sueco e costa norte norueguesa; a população desta cultura agia com alta mobilidade, buscando recursos costeiros que variavam entre as estações e, para isso, desenvolveu mais itens de pesca adaptados ao mar.


Portanto, sua subsistência era mais voltada à pesca do que à caça e coleta nas florestas.


Pré-História Nórdica, a Idade da Pedra: Cultura de Kongemose (aprox. 6.400–5.400 AEC)

A Cultura de Kongemose, no Mesolítico médio, é composta de caçadores-coletores que habitaram as regiões da Escânia e Jutlândia (dentre outras) em meio a florestas de carvalhos e outras árvores com folhagens largas.


Neste período, o nível do mar subia. A alimentação incluía auroques, focas, bacalhau, arenque e enguias.


Foram produzidos machados de núcleo (núcleos preparados para produção de lâminas), também anzóis de ossos e outras ferramentas para a pesca, bem como armadilhas montadas com vime.


Livros Vikings |  Fragmentos de anzóis do Mesolítico Médio (região de Skagerrak)
Fragmentos de anzóis do Mesolítico Médio no nordeste da região de Skagerrak, estreito marítimo situado entre a Noruega, a Suécia e a Dinamarca. — Crédito da Imagem: Anja Mansrud [Huseby Klev], Anders Andersson [Dammen], Per Persson [Prestemoen] / ResearchGate

Pré-História Nórdica, a Idade da Pedra: Cultura de Ertebølle (aprox. 5.400–3.950 AEC)

No Mesolítico tardio temos a Cultura de Ertebølle, composta por caçadores-coletores e pescadores, com destaque para as regiões da Jutlândia e Escânia.


Um grande amontoado de mexilhões e conchas de ostras foi encontrado e chamado de køkkenmødding — "lixeira de cozinha" em dinamarquês, termo que passou a ter relevância histórica desde então.


Na costa, havia intensa atividade pesqueira, assim como em locais de água doce.


Moluscos eram coletados, e seguia-se com a caça de mamíferos marinhos, como focas e (muito possivelmente) baleias.


Começa a produção de cerâmica, provavelmente em razão de ter ocorrido contato com culturas vindas do sul.


As pontas de sílex passam a ser produzidas com bordas transversais e dá-se início à produção de lâmpadas de gordura.


Deste período há achados arqueológicos de restos humanos consideravelmente bem preservados, com adornos de ossos e penas.


Pré-História Nórdica, a Idade da Pedra: Cultura dos Vasos de Funil (Trattbägarkulturen / Tragtbægerkulture, aprox. 4.000–2.800 AEC)

O Neolítico é marcado pela transição para a agricultura e a Cultura dos Vasos de Funil (Trattbägarkulturen em sueco, e em dinamarquês, Tragtbægerkulture).


São produzidos vasos de corpo arredondado/globular e gargalo em formato de funil, justificando o nome do período.


Dos cinco grupos regionais desta cultura, interessa ao escopo deste estudo o grupo setentrional: há achados deste grupo na Escânia e áreas costeiras, em Fyn e no sudoeste da Jutlândia.


É inaugurada a agricultura generalizada e a pecuária, bem como o plantio de trigo e cevada.


Bovinos, caprinos, suínos e ovinos passam a ser domesticados, e estas mudanças permitem assentamentos de aldeias agrícolas permanentes.


São produzidos machados de sílex polido, ferramentas de trabalho polidas, decorações, machados cerimoniais e lâminas longas de sílex de alta qualidade.


São construídas habitações robustas e as dysser (dólmens): câmaras funerárias megalíticas, feitas com grandes blocos de pedra e usadas para enterros coletivos.


Há achados arqueológicos de ofertas fúnebres compostas por cerâmicas, ferramentas de sílex, machados de pedra e até mesmo cobre (ainda que em menor escala).


Tais monumentos funerários marcam uma sociedade de complexa organização em comparação às culturas anteriores.


É de destacar o uso de cobre que, mesmo escasso, estabelece o início do desenvolvimento dos metais na Escandinávia.


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A Trattbägarkulturen foi influenciada por povos agricultores vindos do sul, da região da Europa Central (Cultura da Cerâmica Linear / LBK).


Povos agricultores migraram, de acordo com evidências genéticas, e misturaram-se com os caçadores-coletores locais enquanto se espalhavam pelo continente.


Pré-História Nórdica, a Idade da Pedra: Pré-História Sámi

E os ancestrais dos Sámi?


Resumindo de forma muitíssimo breve, ao longo de milênios ocorreram diversas ondas migratórias de várias direções (Europa Ocidental, Oriental, região Volga-Ural, Sibéria).


Os habitantes indígenas da Fenoscândia têm origens genéticas de caçadores-coletores europeus e também siberianos.


Das Culturas de Fosna, Komsa e Ahrensburg vem a possibilidade de ascendência parcial dos primeiros povoadores pós-glaciais das regiões que hoje são habitadas pelos Sámi, oriundos de diversos processos de migração e adaptação cultural que atravessaram milênios.


Livros Vikings | Arte rupestre de Alta, norte da Noruega.
Arte rupestre de Alta, norte da Noruega. — Crédito da Imagem: Andreas Haldorsen / Wikipédia

Os Sámi fazem parte da história escandinava, embora sua cultura e língua não sejam nórdicas, mas sim urálicas, do ramo fino-úgrico.


Sempre que possível, também serão abordadas menções sobre este povo que, junto aos nórdicos, compõe a população e forma a história escandinava.


FAQ: Perguntas Frequentes Sobre a Idade da Pedra Nórdica

1) Quando os primeiros humanos chegaram à Escandinávia?

Após o recuo das geleiras, entre de 10.900–9.700 AEC, com a Cultura de Ahrensburg. Eram caçadores-coletores nômades que seguiam manadas de renas das planícies da Europa Central.


2) Qual cultura marcou o início da agricultura na Escandinávia?

A Cultura dos Vasos de Funil (Trattbägarkulturen), por volta de 4.000 a.C., que introduziu cultivo de trigo, cevada e domesticação de animais no Neolítico.


3) Quais as origens dos Sámi?

Os Sámi são habitantes indígenas da Fenoscândia com origens genéticas de caçadores-coletores europeus e também siberiana. São povos indígenas da Fenoscândia.


4) O que são as køkkenmødding?

Pelos køkkenmødding ("lixeiras de cozinha") são enormes amontoados de conchas de ostras e mexilhões que evidenciam intensa atividade pesqueira e coleta no Mesolítico tardio, durante a Cultura de Ertebølle.


5) Qual intercâmbio cultural foi essencial durante a Cultura dos Vasos de Funil?

A Trattbägarkulturen foi influenciada por povos agricultores vindos do sul (Europa Central). Povos agricultores migraram e misturaram-se com os caçadores-coletores.


Conclusão: Pontos essenciais para o entendimento da Idade da Pedra Nórdica

Somente com o recuo das geleiras e a formação da tundra tornou-se possível habitar a Escandinávia.


A busca por alimento possibilitou o desenvolvimento das culturas nômades, tendo a primeira delas migrado seguindo e caçando as renas.


Diversos instrumentos foram desenvolvidos pelas culturas mencionadas para facilitar a caça e a pesca em um estilo de vida nômade.


O contato com culturas vindas do sul europeu proporcionou o início do desenvolvimento da cerâmica e da agricultura. Assentar-se em local fixo, criando animais e plantando, possibilitou que as tribos desenvolvessem seus primeiros sinais de refinamento cultural.


Neste momento, temos alguns dos primeiros indícios do início do desenvolvimento da fé nórdica: machados cerimoniais e ofertas fúnebres.


A Cultura dos Vasos de Funil marca a transição da Idade da Pedra para a Idade dos Metais na Pré-História Nórdica.


Como veremos nos próximos artigos, a Idade dos Metais chega tardiamente ao norte da Europa.


Acompanhe a sequência de artigos que contará muito mais do que aconteceu antes, durante e depois da Era Viking.


Disclaimer

O presente texto foi produzido e fornecido por um parceiro terceiro homologado, sendo sua reprodução devidamente autorizada no Portal Livros Vikings. Esclarece-se que o autor desta obra não possui qualquer vínculo formal, contratual ou direto com a Livros Vikings, sendo de sua exclusiva e integral responsabilidade civil e criminal o conteúdo, opiniões e informações veiculadas, nos termos da legislação brasileira vigente.


Referências

ALLENTOFT, M. E. et al. Ancestry, kinship, mobility, and disease in Neolithic Scandinavia. Uppsala University, 2024.


ANDERSEN, S. H. Economic Prehistory in Southern Scandinavia. The British Academy, 1999.


INGMAN, Max; GYLLENSTEN, Ulf. A recent genetic link between Sami and the Volga-Ural region of Russia. European Journal of Human Genetics, v. 15, p. 115-120, 2007.


HOLM, Jørgen. The Earliest Settlement of Denmark. Medium, 2017. Disponível em: <https://jorgenholm.medium.com/the-earliest-settlement-of-denmark-d9d4c40d8435>.


LARSSON, Lars. Settlement and Palaeoecology in the Scandinavian Mesolithic. The British Academy, 1999.


PEDERSEN, Kristoffer Buck. Brommeproblemet 2.0. Aarhus University, 2023. Disponível em: <https://www.archaeology.dk/upl/15532/AF3003KristofferBuckPedersen.pdf>.


SJÖGREN, Karl-Göran. The Funnel Beaker Culture in Action: Early and Middle Neolithic Monumentality in Southwestern Scania, Sweden (4000-3000 cal BC). Journal of Neolithic Archaeology, 2022.


SKOGLUND, P. et al. Ancient mitochondrial DNA from the northern fringe of the Neolithic farming expansion in Europe sheds light on the dispersion process. Philosophical Transactions of the Royal Society B, v. 370, 2015.


TAMBETS, Kristiina et al. The Western and Eastern Roots of the Saami—the Story of Genetic "Outliers" Told by Mitochondrial DNA and Y Chromosomes. American Journal of Human Genetics, v. 74, p. 661-682, 2004.


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Livros Vikings | Paulo Marsal, editor-chefe e CEO da Livros Vikings

Sobre o Editor:

Paulo Marsal é jornalista (MTb nº 0091859/SP) e fundador da Livros Vikings, o principal portal em língua portuguesa dedicado à cultura nórdica. Como palestrante e especialista em comunicação, atua na curadoria e direção editorial do site, dedicado à difusão de informações precisas, pesquisas e descobertas sobre a história e a mitologia escandinava para o público brasileiro.

✉️ Contato: paulomarsal@livrosvikings.com.br

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