História Nórdica: Idade dos Metais, do Bronze ao Ferro

Uma jornada pela Idade dos Metais nórdica: descubra como comércio, guerras, tragédias climáticas e transformações sociais prepararam a Escandinávia para a Era Viking

Neste artigo, você verá
Conclusão: Pontos essenciais para o entendimento da Idade dos Metais Nórdica;
História Nórdica, Parte 2: Idade do Bronze e Idade do Ferro — Das Primeiras Ligas Metálicas às Portas da Era Viking
A Idade dos Metais, ou seja, do Bronze e do Ferro, desenvolveu-se tardiamente na Escandinávia, apenas por volta de 1.700 AEC, cerca de 1.600 anos após seu surgimento em regiões vizinhas.
No Mediterrâneo Oriental (Oriente Próximo), a Idade dos Metais começou aproximadamente em 3.300 AEC, e nas Ilhas Britânicas desde 2.100 AEC.
O presente artigo discorre sobre informações essenciais que marcaram a Idade do Bronze e a do Ferro, períodos anteriores a Era Viking e que a influenciaram fortemente.
Leia também: História Nórdica: Pré-História e Idade da Pedra
Pré-História Nórdica: Idade do Bronze (aprox. 1.700–500 AEC)
Como culturas localizadas em uma região geográfica na qual não há estanho e cobre pode produzir bronze? A resposta é o comércio. A comunicação com povos do sul já ocorria durante a Idade da Pedra.
As trocas comerciais e culturais seguiram em desenvolvimento, importar metais e exportar âmbar indicam que os comerciantes viajaram grandes distâncias estabelecendo contatos com a Europa Central e o Mediterrâneo.
A Arte deste período é marcada pelos hällristningar (petróglifos, com destaque para Østfold e Bohuslän) e os monumentos funerários Skeppssättning (navios de pedra, pedras dispostas em formato de navios).
Podemos ver cenas de batalhas, alusões à fertilidade e criação de animais na arte rupestre. Os Skeppssättning, os Montes Funerários (Tumuli) e os caixões de tronco de carvalho (escavados em um tronco único) são exemplos funerários de como a elite era honrada na morte, acompanhada de itens de alto valor.
É importante considerar que a cremação também segue sendo praticada.
Embora existam petróglifos desde a Idade da Pedra, na arte da Idade do Bronze podemos observar instrumentos como machados, armas, e joias representados.

Alguns dos objetos que marcam o período são os capacetes de Viksø e as trompas lurs, de utilização cerimonial e que marcavam status religioso e social. Neste período, elites guerreiras surgem, governadas por chefes tribais.
O culto solar já era característico nas Religiões germânicas e nórdicas do período, muitos sacrifícios votivos às Divindades proto-nórdicas foram localizados em regiões pantanosas. Entre os diversos tipos de ofertas encontradas há vasos, ornamentos, e a carruagem conhecida como Solvognen (o Carro Solar de Trundholm).

Neste período também ocorre notável mudança climática: a temperatura fica mais fria; juntamente a isto, a transição para a utilização do ferro gerou tensões econômico-sociais que culminaram em conflitos armados. A soma destes problemas, em especial os econômicos e militares, causou grande diminuição da população.
História Nórdica: Idade do Ferro Pré-Romana (500 AEC–0 EC)
Enquanto para a produção do bronze era necessário comercializar estanho e cobre vindos de fora da Escandinávia, o ferro era um metal mais acessível por se encontrar localmente.
A subsistência segue mantida essencialmente pela agricultura e pecuária, junto a caça e pesca.
O clima mais frio fez com que animais tivessem que ser mantido mais comumente dentro de casa, a qual ganhou aspecto predominantemente comunal. Estas Casas Comunais de três naves chegavam a ter até 80 m de comprimento e são um dos marcos do período.
O intercâmbio cultural com povos germânicos (predominantemente) e celtas (cultura de La Tène) do continente pode ser identificado através de traços em objetos como cerâmicas, ferramentas e ornamentos.
A cultura germânica de Jastorf influenciou a Escandinávia meridional, facilitada por germânicos e nórdicos falarem o protogermânico.
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A cremação passa a ser a práticas funerária predominante, contando com os campos de urnas cerâmicas, as quais eram preenchidas com cinzas e restos de ossos que restaram da cremação.
Objetos metálicos poderiam ser queimados ou enterrados com os mortos.
A sociedade se organizava e unia através de laços de sangue, proximidade geográfica e juramentos de lealdade ao chefe tribal. Alianças tribais eram estabelecidas em prol de propósitos em comum. As sociedades eram menos estratificadas do que no período anterior.
Ofertas feitas em pântanos e lagos continuam, incluindo sacrifícios humanos. Data deste período a oferta do Caldeirão de Gundestrup, notavelmente de estilo estrangeiro, e feito de prata.
História Nórdica: Idade do Ferro Romana (0–400 EC)
Este período é fortemente marcado pelo contato com o Império Romano. A Escandinávia nunca foi parte de Roma, mas com ela fez trocas comerciais, diplomáticas e militares (fosse a compra de armas ou espólios resultantes de conflitos).
Os nórdicos combateram romanos ao lado de tribos germânicas, e também serviram como mercenários aos romanos.
Além de armas, outros objetos romanos datados deste período encontrados na Escandinávia são moedas, vidro, e bronze.
Datam deste período as primeiras inscrições rúnicas, obviamente do sistema conhecido como Elder Fuþark (Antigo Fuþark). Um dos intercâmbios culturais mais produtivos com os romanos foi a possível influência para desenvolver este sistema de escrita para o protogermânico e posteriormente para o protonórdico.
Embora a Pedra de Kylver (400 EC) ainda seja comumente referenciada como o marco inicial da escrita rúnica, antes dela há a Pedra de Svingerud (1 – 250 EC).

Sacrifícios em pântanos continuam sendo praticados. Destaque para os locais Illerup Ådal e Ejsbøl, ambos na Dinamarca, nos quais exércitos inimigos foram sacrificados.
Entre os achados arqueológicos de objetos sacrificados em pântanos, temos armas, cotas de malha, capacetes, arreios de cavalo, pentes de chifre, e roupas.
Lideranças tribais se aliam para conquistarem recursos através da guerra e do controle de rotas comerciais, gerando classes guerreiras (contando com a posse de armas romanas).
A agricultura é fomentada para suprir o aumento das elites e guerreiros. O ferro é forjado não apenas para armas, mas para ferramentas agrícolas que acelerem o trabalho.
Além do contato comercial com os romanos e germânicos, a região do báltico também é abrangida. O âmbar continua sendo fortemente exportado.
As práticas funerárias seguem sendo predominantemente crematórias, mas enterros também ocorrem, com direito a sacrifícios de itens que demonstram o poder social do falecido.
Povos germânicos, como os Godos (com origem escandinava comprovada) e possivelmente Lombardos, migraram do sul da Suécia e Jutlândia através da Europa Continental.
História Nórdica: Idade do Ferro Tardia, Período Migratório (400–550 EC)
A queda do Império romano impactou a Escandinávia comercialmente, afetando suas rotas comerciais e economia. Novas redes comerciais regionais precisaram ser estabelecidas.
Na realidade, a 'queda' de Roma não foi um processo único, e existem apenas incidentes isolados que mostram um declínio acentuado (embora alguns deles tenham sido drásticos, como o próprio saque de Roma, a 'Cidade Eterna', pelos godos em 410). Anos bons e ruins ocorriam ao mesmo tempo em diferentes regiões do Império Romano. Para os cidadãos do Estado e as pessoas além de suas fronteiras, mas ainda dentro de sua órbita, tudo isso teria sido sentido de uma miríade de maneiras, algumas repentinas e outras lentas, a ponto de serem imperceptíveis à medida que se desenrolavam. Neil Price, 2020
As elites guerreiras foram reconfiguradas para que não dependessem dos bens romanos: eles foram substituídos pela produção in loco e por espólios de saques.
As migrações de povos germânicos seguem fortes até aproximadamente o século V.

O Salão Real de Gudme, localizado na Dinamarca, foi um grande centro de poder deste período: estima-se população de cerca de 2.000 a 3.000 habitantes no século V, os quais produziam ferro, vidro e bronze.
Em Gudme foram localizados mais de 1.000 objetos de ouro e prata, e há indícios de que as conexões comerciais da região a ligassem até o Império Bizantino.
Na Arte, destaca-se o Estilo Animal Germânico (Germanischer Tierstil) nas fases I e II (conforme a divisão do arqueólogo sueco Bernhard Salin, que vai até o III). Este estilo foi marca de poder social e conexão cultural durante o Período Migratório em toda Europa sob influência germânica.
Erupções vulcânicas nos anos de 536 (na Islândia e nos Trópicos) e 539/540 (em El Salvador), e uma possível terceira erupção em 547 (em local desconhecido) geraram um fenômeno conhecido como “véu de poeira”, o qual durou por meses e gerou impactos por anos.
O Véu de Poeira foi gerado por partículas ejetadas pelas erupções que ficaram circulando na estratosfera inferior, bloqueando a luz solar, evitando que o calor entrasse e tingindo o céu noturno em tons ígneos.
No que academicamente é chamado de geomitologia, é ponderado este período possa ter marcado a crença de que o mesmo tipo de situação possa voltar a repetir-se – o que está longe de ser improvável, já que estamos sempre sujeitos a desastres naturais.
“Escuro será o brilho de Sól nos próximos verões, o clima será completamente instável. Isto ainda é sabido por vós, ou o que?” Trecho do verso 41 da Völuspá, traduzido por Allan P. Marante.
História Nórdica: Idade do Ferro Tardia, Era Vendel (550–800 EC)
No século XIX escavações no sítio arqueológico de Vendel na Suécia revelaram sepultamentos em barcos com elaborados equipamentos militares, daí o nome do período.
Na Era Vendel formaram-se fortes Elites Guerreiras: ser um guerreiro foi profissionalizado. Haviam recursos para equipar exércitos permanentes e controlar territórios extensos.
O ethos (conjunto de valores, a grosso modo) militar é formado, tendo em seu cerne o pertencimento comunitário, honra, companheirismo, laços de sangue e de juramentos e lealdade.
Datam deste período capacetes ornamentados com placas decoradas, cotas de malha de ferro, espadas e escudos ricamente decorados e encontrados em sepultamentos de Vendel e Valsgärde, na Suécia.
Nos sepultamentos feitos com barcos de madeira enterrados também foram encontrados cavalos de guerra, além de itens militares decorados e objetos de valor. Os imponentes barcos eram construídos com a utilização de pregos e rebites produzidos graças ao ferro trabalhado neste período.
Gamla Uppsala (Suécia) e Lejre (Dinamarca) eram Centros de Poder dos reinos tribais emergentes do período: compartilhavam de características como grandes salões nos quais eram realizados banquetes, julgamentos e rituais religiosos, perpetuando o que conhecemos como Cultura de Salão, originada na Idade do Ferro Tardia. Como centro religioso, Gamla Uppsala tem destaque.
Surgem importantes dinastias, como os Ynglingar e os Völsungar, mencionadas em sagas (muito posteriormente mencionadas), por suas histórias terem perdurado séculos nas tradições orais.
Este é um período de constantes conflitos entre tribos rivais, o que fortalecia os grupos mais fortemente armados, os quais transformavam as guerras em oportunidades de enriquecimento e expansão territorial.
Neste período ainda se fala o protonórdico, portanto, o sistema rúnico segue sendo o Elder Fuþark. Como veremos no próximo artigo, o idioma e sistema rúnico serão outros durante a Era Viking.
O Comércio na Escandinávia formava rotas com o Mar Báltico até a Rússia, chegando ao Mar Negro e ao Império Bizantino.
Âmbar, escravos e peles eram exportados para o sul, em troca, eram recebidos bens manufaturados e metais preciosos.
Pré-História Nórdica: Pré-História Sámi, Idade do Bronze e Idade do Ferro (aprox. 1.700 –800 EC)
Resumidamente, as Idades do Bronze e Ferro foram vivenciadas pelos Sámi com a subsistência mista de caça, pesca e coleta. Também desenvolveram trocas comerciais.
Neste período, os Sámi tinham assentamentos em regiões costeiras (Finnmark, Troms), e interioranas (interior na Lapônia sueca e finlandesa) próximas a rios.
No interior, as renas seguem sendo caçadas desde tempos antigos, mas nestes períodos começa a criação destes animais, ainda que em pequena escala, para alimentação, carga e uso como isca para caça (o chamado proto-pastoralismo). O pastoralismo móvel cresceu exponencialmente somente entre 1400-1600 EC.
Os contatos dos Sámi com outros povos aumentaram com o comércio no Mar Báltico. Durante a Idade do Bronze e do Ferro, os Sámi tinham conexões comerciais com os fino-úgricos ao leste (região Volga-Kama), os Rus, os Nórdicos e povos do Báltico do sul. Para as trocas comerciais, os Sámi tinham peles, couro, e produtos de caça a oferecer.
Além de objetos de cerâmica, bronze e ferro encontrados em sítios Sámi, que marcam trocas comerciais, há evidências genéticas de DNA Sámi e DNA de povos fino-úgricos da região Volga-Kama na Idade do Ferro, indicando contatos populacionais.
Mesmo com interações com outros povos, os Sámi mantiveram-se distintos deles, tendo sua identidade já consistentemente perceptível no final da Idade do Bronze, podendo ser arqueologicamente identificável.
Alguns marcadores arqueológicos característicos dos assentamentos Sámi são fogueiras retangulares e ovais. Cerâmicas de amianto (cerâmicas com asbestos) e sepulturas em regiões de montanhas e lagos são outras marcas de sua diferenciação cultural.

Os objetos produzidos pelos Sámi, feitos de ferro e bronze, incluem joias, moedas, ferramentas de caça, preparação de presas, pesos, pontas de flecha, facas, e utensílios; também foi encontrada prata cortada, nos sítios de Sangis e Vivungi no norte da Suécia.
A adoção da metalurgia foi seletiva, não tendo se tornado a principal atividade de subsistência.
FAQ: Perguntas Frequentes Sobre a Idade dos Metais Nórdica
1. Quando começou a Idade do Bronze na Escandinávia?
Por volta de 1.700 AEC. Como a região não possuía cobre e estanho em quantidade, o bronze dependia de redes comerciais de longa distância.
2. Por que o âmbar foi importante na Idade do Bronze?
O âmbar báltico era um produto valioso de exportação. Em troca, comunidades escandinavas recebiam cobre e estanho usados para produzir bronze.
3. O que mudou com a chegada do ferro?
O ferro podia ser obtido de matérias-primas locais, tornando ferramentas e armas mais acessíveis do que o bronze, que dependia de metais importados.
4. Quando surgiram as primeiras runas na Escandinávia?
As primeiras inscrições rúnicas datam aproximadamente do século I EC. Usavam o Elder Fuþark, sistema de 24 caracteres provavelmente influenciado sob contato com o mundo romano.
5. O que foi a Era Vendel?
Foi o período entre cerca de 550 e 800 EC, imediatamente anterior à Era Viking, conhecido por elites guerreiras, sepultamentos em barcos, Casas Comunais e comércio de longa distância.
Conclusão: Pontos essenciais para o entendimento da Idade dos Metais Nórdica
Diversos fatores contribuíram para que a Escandinávia se armasse fortemente, em especial na Idade do Ferro: disputas de poder comercial e militar no processo de queda do Império Romano, escassez de alimentos após tragédias climáticas e desenvolvimento da metalurgia com recursos locais de ferro.
O ofício e arte de trabalhar metais possibilitou exponencialmente o desenvolvimento militar, artístico, naval e comercial.
O ethos guerreiro formou-se, a Escandinávia estava armada após sobreviver a tempos obscuros de poucos recursos e a constantes disputas de poder.
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