Eiríkr blóðøx e Gunnhildr: a Verdade Por Trás do Mito Viking
- Paulo Marsal

- há 3 horas
- 10 min de leitura
Explore a complexa teia de poder, comércio e política do famoso líder viking Machado Sangrento e de sua formidável rainha consorte

Neste atigo, você verá
O estudo de Eiríkr Haraldsson, amplamente reconhecido como Eiríkr blóðøx ("Machado Sangrento"), e de sua consorte Gunnhildr Gormsdóttir, apelidada de Gunnhildr konungamóðir ("Mãe de Reis"), exige uma navegação rigorosa através de uma densa neblina.
Estas figuras proeminentes da Escandinávia do Século X habitam um espaço onde o mito literário, a propaganda política medieval e as escassas evidências arqueológicas contemporâneas se cruzam de forma caótica.
A narrativa histórica popular projeta Eiríkr como o arquétipo definitivo do guerreiro escandinavo: brutal, implacável e essencialmente despótico. Em contrapartida, as lendas retratam Gunnhildr como uma feiticeira malévola, sedutora e altamente manipuladora.
Contudo, uma análise fundamentada em fontes primárias, evidências numismáticas e investigação acadêmica expõe uma realidade substancialmente mais complexa.
O escrutínio destas personalidades desmistifica os equívocos literários, revelando uma teia intrincada de relações comerciais, alianças dinásticas, mecenato cultural e intensas lutas pela sobrevivência política em um período de transição marcada pela violência.
Evidências e Descobertas: Navegando entre Registros e Sagas
A compreensão do reinado destas personalidades requer a análise de duas tradições textuais distintas, as quais frequentemente entram em colisão direta.
De um lado, existem os registros contemporâneos ou quase-contemporâneos oriundos das Ilhas Britânicas. Do outro, figuram as sagas islandesas e norueguesas, redigidas séculos após os eventos.
A historiografia moderna reavalia criticamente a dependência histórica em relação às sagas, pois os acadêmicos destacam as dinâmicas de poder e as agendas ideológicas que moldaram estas representações ao longo dos séculos.
Tabela de Fiabilidade das Fontes
Categoria da Fonte | Exemplos Principais | Fiabilidade e Contexto Historiográfico |
|---|---|---|
Documentação Contemporânea | Crónica Anglo-Saxónica, Anais do Ulster, Numismática de Jórvík | Alta fiabilidade para datas e eventos geopolíticos. Foca em transações e sucessões, mas oferece poucos detalhes biográficos. |
Poesia Escáldica | Eiríksmál, poemas de Egill Skallagrímsson, Hákonarmál | Média a alta fiabilidade. Utilizada como propaganda de corte, reflete a ideologia da elite. |
Hagiografia e Crônicas | Vida de São Cathróe, Historia Norwegiæ | Média fiabilidade. Apresenta perspectivas clericais anti-pagãs, úteis para cruzar dados com as sagas. |
Sagas Islandesas | Heimskringla, Egils saga, Fagrskinna | Baixa a média fiabilidade factual. Fundem fatos com folclore para criticar o imperialismo norueguês e legitimar as origens da Islândia. |
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As Origens: O Mito de Haraldr hárfagri
A ascensão de Eiríkr blóðøx está intimamente conectada ao processo de unificação da Noruega, um evento monumental que a tradição atribui ao seu pai, Haraldr hárfagri (Haroldo Cabelo Belo).
Segundo as sagas, Haraldr consolidou o poder sobre os pequenos reinos noruegueses no final do Século IX. Eiríkr seria o seu filho predileto, destinado a herdar a supremacia sobre o reino unificado, concebido com a princesa dinamarquesa Ragnhildr miklá.
No entanto, historiadores contemporâneos, como Sverrir Jakobsson e Claus Krag, contestam vigorosamente a existência histórica de Haraldr hárfagri como o grande unificador.
Leia também: O Mito de Harald Fairhair: A Batalha de Hafrsfjord Realmente Unificou a Noruega Viking?
Argumentam que inexistem evidências contemporâneas que confirmem um rei com este nome a unificar a Noruega naquele período.
O rei norueguês mais antigo atestado em fontes fidedignas é Haraldr Blátǫnn (Haroldo Dente-Azul), que reinou apenas no final do Século X.
Registros da época, como o relato do explorador Ohthere à corte do Rei Alfredo (cerca de 890), omitem qualquer referência a um rei supremo em toda a Noruega.
A figura mítica de Haraldr desenvolveu-se gradualmente para legitimar as reivindicações da monarquia norueguesa sobre a sucessão e para justificar a narrativa fundacional da Islândia.
Neste paradigma revisionista, Eiríkr atuou provavelmente como um chefe regional soberano nas regiões costeiras do sudoeste norueguês, cuja linhagem recebeu uma conexão retroativa a um ancestral unificador mítico.
A sua união com Ragnhildr refletia as dinâmicas de alianças comerciais e militares do Mar do Norte, essenciais para adquirir prestígio e dissuadir ameaças.
A Juventude de Eiríkr: Incursões Comerciais e o "Blóðøx"
As compilações islandesas notam que Eiríkr passou grande parte de sua infância em um regime de adoção formativa com o influente chefe Thórir.
Com doze anos, recebeu navios de seu pai e embarcou em uma intensa carreira de pirataria e comércio.
Realizou incursões pelo Báltico, Dinamarca, Frísia e Alemanha, seguidas por expedições ao extremo norte. A Egils saga aponta que ele navegou até o interior da Rússia (Bjarmaland), onde saqueou o porto de Permina.
Do ponto de vista econômico, estas operações funcionavam como missões comerciais altamente organizadas, focadas na aquisição de bens de luxo essenciais, como peles raras e marfim de morsa.
O controle destas mercadorias financiava o seu hird (exército privado), um mecanismo vital para manter o seu poder regional.
A origem do epíteto blóðøx ou fratrum interfector carece de consenso definitivo.
Textos como a Ágrip e a Historia Norwegiæ enraízam o termo na sua propensão para o fratricídio, pois ele assassinou vários meios-irmãos (Ragnvald, Bjørn Farmann, Olaf e Sigrød) para monopolizar recursos;
A Fagrskinna sugere que o nome derivou exclusivamente da sua bem-sucedida reputação como pirata durante a juventude.
A realidade por trás do apelido indicia um estilo de liderança utilitário, onde a violência operava como instrumento para subjugar a oposição em uma paisagem carente de instituições estatais coercivas.
A Identidade de Gunnhildr: Soberania, Alianças e Difamação
Nenhuma figura feminina da época gera tanto debate quanto Gunnhildr. As sagas transcendem o seu papel de consorte; ela atua como regente, estrategista e arquiteta do destino da dinastia.
Para os cronistas islandeses, ela materializava o mal: uma feiticeira luxuriosa e influência corruptora sobre Eiríkr.
As fontes divergem sobre as suas origens geográficas e familiares. A Historia Norwegiæ assevera que ela era filha de Gorm o Velho, rei da Dinamarca.
Especialistas como Gwyn Jones consideram esta narrativa historicamente provável, pois o casamento representaria uma aliança estratégica essencial entre as dinastias nórdicas, oferecendo acesso a rotas mercantis e proteção contra rivais.
Em contraste violento, a tradição islandesa desloca o nascimento de Gunnhildr para o norte gélido (Hålogaland), identificando-a como filha de Ozur Toti.
A lenda afirma que Eiríkr a encontrou com feiticeiros finlandeses que lhe ensinavam seiðr (magia nórdica). Após Gunnhildr ludibriar os magos, Eiríkr desposou-a.
Acadêmicos modernos argumentam que esta atribuição de tutelagem mágica é um artifício literário deliberado para exotizar as suas raízes e providenciar um pretexto para culpar a sua "feitiçaria" pelos fracassos do marido.
A análise das menções à rainha revela um profundo viés androcêntrico. Ações de governança e diplomacia sofriam criminalização simplesmente por provirem de uma mulher.
O epíteto de "Rainha Bruxa" oculta astúcia política verdadeira.
Por exemplo, a inimizade com Egill Skallagrímsson gerou relatos míticos: as sagas afirmam que ela se transformou em uma andorinha para assombrar o poeta, enquanto ele ergueu um níðstöng (poste de maldição) contra o casal real.
Na realidade, ela administrava redes de espionagem e protegia a integridade econômica da sua descendência.
O Exílio e a Diáspora nas Ilhas Britânicas
A soberania do casal na Noruega (c. 932–934) esbarrou na intransigência. A imposição de pesados tributos suscitou profundo descontentamento agrário e aristocrático.
O colapso ocorreu com a chegada de Hákon o Bom, que congregou as elites dissidentes ao prometer abolição da opressão fiscal.
Em imensa desvantagem tática, a família abandonou a Noruega e recuou para as Órcadas (Orkney), reafirmando ali a sua influência como plataforma logística para novas incursões.
Cronistas relatam que o impacto militar forçou a diplomacia inglesa, e o Rei Æthelstan ofereceu a Eiríkr o domínio de York (Jórvík) com pesadas condições: batismo e a proteção das fronteiras contra investidas escocesas e gaélicas.
No entanto, acadêmicos como Clare Downham alertam que as sagas sobrepõem eventos de forma incorreta.
![Livros Vikings | Penny de prata da Alta Idade Média, datado do segundo reinado de Eiríkr blóðøx (952–954 d.C.). O anverso exibe uma espada central ladeada pela inscrição [ERIC REX], moeda forjada pelo mestre Ingelgar em Jórvík (York). — Crédito da Imagem: Creative Commons.](https://static.wixstatic.com/media/060e40_fd694b6cbf7a44bbafb5e26cfa57b917~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_986,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/060e40_fd694b6cbf7a44bbafb5e26cfa57b917~mv2.jpg)
Descobertas Numismáticas na Jórvík Viking (York)
A Nortúmbria do Século X consistia em um caldeirão multiétnico anglo-escandinavo que oscilava entre a submissão a Wessex, alianças com a Escócia e ambições da dinastia de Ivarr de Dublin.
Jórvík brilhava como o centro do comércio global na Grã-Bretanha.
A documentação inglesa indica que a Nortúmbria aceitou Eiríkr como rei em 948, em repúdio aos juramentos feitos ao rei inglês Eadred.
A resposta de Eadred foi brutal: uma invasão em grande escala que forçou os cidadãos a subornarem o rei inglês e expulsarem Eiríkr. Um vácuo de poder sucedeu, preenchido por Amlaíb Cuarán de Dublin, mas em 952 a facção anglo-dinamarquesa exilou Amlaíb e reconvocou Eiríkr.
A numismática materializa a evolução do entendimento deste período. O poder em York fluía através da cunhagem e do comércio.
O lendário mestre moedeiro Ingelgar trabalhou ininterruptamente para reis ingleses, para Eiríkr e para Amlaíb, provando que a economia de York não paralisava com a deposição política.
A burocracia comercial era sofisticada e indiferente às guerras bélicas. A cunhagem do monarca exibe a sua ideologia estatal:
Primeiro Reinado (947-948): moedas do tipo "Pequena Cruz" imitavam o design do sul da Inglaterra, visando compromisso comercial e integração diplomática;
Segundo Reinado (952-954): o tipo "Moeda da Espada" introduzia uma espada viking horizontal, sinalizando recusa total da suserania inglesa e uma demonstração agressiva de poder.
Apesar do consenso aceitar Eiríkr de York e da Noruega como a mesma pessoa, teses modernas sugerem a possibilidade do rei de York pertencer à facção Uí Ímair, devido à ambiguidade dos manuscritos latinos e crônicas inglesas.
Limitações e Desafios Arqueológicos: A Morte em Stainmore
O segundo reinado de Eiríkr ruiu rapidamente. A brutalidade coerciva, as despesas constantes do exército privado e o bloqueio econômico causaram rupturas insustentáveis no governo.
Em 954, os nobres anglo-saxônicos da Nortúmbria rebelaram-se, depuseram Eiríkr e aceitaram a autoridade centralizadora da Inglaterra.
Fugindo em direção noroeste pelo passo dos Pennines, o desterrado rei e seu filho sofreram uma emboscada em Stainmore.
As crônicas creditam o golpe a Osulf de Bamburgh, que utilizou um executante chamado Maccus. A sua morte encerrou a independência do Reino da Nortúmbria.
A lenda aponta que o seu túmulo repousa sob a Rey Cross.
Contudo, escavações arqueológicas modernas na década de 1980 na cruz de delimitação não revelaram vestígios humanos, mantendo o destino físico dos seus restos mortais submerso na obscuridade.

Implicações Históricas e Culturais: O Legado Matriarcal
A memória do rei sobreviveu não através dos seus feitos bélicos, mas pela notável astúcia de relações públicas da sua viúva.
Gunnhildr encomendou o famoso poema Eiríksmál em meados de 954.
Esta peça escáldica reconstrói a derrota brutal transformando-a em glória, imaginando a retumbante recepção de Eiríkr no Valhalla.
A genialidade política do texto justifica a sua morte ao afirmar que o deus Odin (Óðinn) necessitava do guerreiro mais formidável do mundo mortal para enfrentar a ameaça do "Lobo Cinzento" (Fenrir) no iminente Ragnarǫk.
Posteriormente, Gunnhildr orquestrou campanhas de exílio, retornando ao poder na Noruega ao lado do filho Haraldr gráfeldr.
Como verdadeira konungamóðir, ela reiterou políticas despóticas e impostos pesados até o fim de seus dias.
O seu legado sociológico espelhou-se na atuação de sua filha, Ragnhildr Eiríksdóttir, que exibiu igual ferocidade maquiavélica nas Órcadas, orquestrando casamentos diplomáticos e assassinatos sistemáticos para garantir domínio territorial.
FAQ: Perguntas Frequentes sobre a Liderança Viking de Eiríkr e Gunnhildr
1. O Rei Haraldr hárfagri unificou toda a Noruega de forma pacífica?
Não. Historiadores modernos contestam a própria existência de Haraldr hárfagri como unificador da Noruega no século IX, argumentando tratar-se de um mito criado posteriormente para legitimar dinastias.
2. Por que Eiríkr ganhou o epíteto de "Machado Sangrento"?
O nome deriva da sua brutalidade em incursões piratas na juventude, ou, como apontam outras fontes e poesias, do fato de ele ter assassinado múltiplos meios-irmãos para consolidar o seu domínio territorial.
3. Gunnhildr era realmente uma feiticeira?
Não. As acusações de bruxaria eram artifícios literários e androcêntricos para criminalizar as suas astutas ações políticas, diplomacia militar e influência governamental.
4. A economia de York entrou em colapso com a expulsão do rei viking?
A economia manteve-se resiliente e próspera. As evidências numismáticas mostram que mestres moedeiros, como Ingelgar, continuaram a forjar moedas ininterruptamente para líderes opostos.
Conclusão: O Verdadeiro Impacto Viking na História Europeia
O escrutínio cuidadoso das evidências revela os exatos contornos das transformações do poderio nórdico na alvorada do segundo milênio.
Eiríkr demonstrou habilidades extraordinárias na exploração comercial do Mar do Norte, porém falhou na governança doméstica, resultando em revoltas que o expulsaram de suas coroas.
O contrapeso a esta fraqueza diplomática residia em Gunnhildr, uma líder política superlativa que administrou redes logísticas cruciais e imortalizou a imagem do marido por meio do mecenato cultural.
A sobrevivência do comércio internacional e as trocas de metais na York de Eiríkr comprovam que as comunidades britânico-escandinavas prosperavam através do pragmatismo econômico, superando os caprichos dos monarcas.
Longe das epopeias folclóricas, o casal reflete e determina a vasta complexidade sociopolítica e econômica que pautou a violenta assimilação da Escandinávia pagã na ordem monárquica europeia.
Este artigo foi parcialmente criado por Inteligência Artificial (IA). Para mais notícias sobre achados arqueológicos e história, continue acompanhando a Livros Vikings. Somos um portal dedicado a trazer informações históricas e curiosidades sobre a Era Viking. Se você gostou deste artigo, compartilhe-o em suas redes sociais!
Referências
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