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A ESPANHA DA ERA VIKING

Todos os anos, no primeiro domingo de agosto, a réplica de um escaler viking do Século XI sobe o rio Ulla até a cidade de Catoira no norte da Espanha. O barco tripulado por habitantes da região vestidos de guerreiros vikings, encena um ataque feroz à cidade, que é defendida com sucesso pelos demais residentes, em uma luta que termina com um banho de sangue, ou melhor, de vinho.


A Espanha da Era Viking
Vinho, não armas: uma reencenação moderna dos vikings na Espanha. EPA/Salvador de Sas Wine, not weapons: a modern re-enactment of Vikings in Spain. EPA/Salvador de Sas

Uma festa galega

Depois da batalha, os vencedores e os “vikings” partilham um almoço tradicional de mexilhões e polvos, executando a verbena — uma dança tradicional galega. Este ano, foram na verdade seis escaleres no festival, um reflexo da crescente popularidade viking na região.


É uma invasão: os residentes de Catoira vestidos de “vikings” enxamearam a terra, vindos de seu navio. EPA/Salvador Sas
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O festival comemora a resistência da Galícia aos ataques vikings ocorridos há mais de 1.000 anos, quando os invasores tentaram saquear os tesouros da catedral de Santiago de Compostela.


A Espanha sofreu invasões e conquistas mais do que qualquer outro país europeu, exceto a Rússia. E, embora as heranças romanas, visigóticas e muçulmanas ainda existam em vários graus, o legado dos vikings na Espanha é mais obscuro.


Isso se deve ao fato dos ataques vikings à Espanha dos Séculos IX ao XI coincidirem com a ascensão do domínio muçulmano no país — foco chave dos historiadores, desde 1980.


Novas pesquisa sobre os vikings na Espanha

Desde a transição à democracia e a maior liberdade após a morte de Franco em 1975, a Espanha se aprofundou em seu passado romano, visigótico e viking. As incursões dos nórdicos no que hoje é a Espanha e Portugal têm sido o foco de novas pesquisas sobre essa parte esquecida da história viking.


A costa da Galícia no noroeste da Espanha
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Os arqueólogos descobriram as âncoras de escaleres vikings na Galícia que chegaram à costa durante uma tempestade perto do que parece ser um grande barco ou acampamento viking.


Entretanto, a maior parte do que sabemos sobre os ataques vikings vem de relatos escritos principalmente por historiadores árabes, que se referiam aos intrusos escandinavos como majūs (مَجوس), que significa “pagãos ou adoradores de muitos deuses”.


Os vikings haviam lançado ataques às ilhas britânicas e ao Império Carolíngio Ocidental governado pelos francos, hoje França, no final do Século VIII.


Eles foram então encorajados a avançar mais para o sul, alcançando Algeciras e Cádiz na costa sul da Espanha e, possivelmente, até mesmo o norte do Marrocos.


Velas vermelhas

O primeiro ataque viking à Espanha ocorreu no ano de 844 d.C. Uma frota nórdica com suas velas vermelhas desembarcou na Galícia após saquear Bordéus e começou a pilhar as aldeias costeiras até serem detidas pelas tropas do Rei Ramiro I das Astúrias perto de Coruña na costa noroeste da Galícia.


Uma lenda local conta que, quando os vikings chegaram à foz do rio Masma, o bispo Gonzalo orou por proteção dos céus. Sua oração foi atendida quando uma grande tempestade se levantou e afundou a maior parte da frota viking.


A costa de Cadiz, Espanha

O ataque viking mais bem documentado e dramático ocorreu em setembro do mesmo ano. Os nórdicos partiram da Galícia para o sul, saqueando a cidade de Lisboa no caminho — a região fazia parte de Muslim al-Andalus — e depois voltaram-se para Sevilha, outrora conhecida pelo nome muçulmano de Išbīliya.


Eles tomaram a cidade no início de outubro, após intensos combates, embora sua cidadela permanecesse sob controle muçulmano. Segundo o historiador muçulmano Nowairi, esses vikings derrotados na Galícia, aterrorizaram os habitantes de Sevilha, os ameaçando de prisão ou morte, caso não cedessem a cidade.


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O emir de Córdoba, Abd al-Rahman II, agiu rapidamente. Ele enviou tropas que teriam destruído trinta escaleres, queimando-os com a arma incendiária “Fogo grego”, um composto de nafta e cal virgem que se inflamam ao entrar em contato com a água.


Alguns relatos afirmam que isso matou cerca de 1.000 vikings. Os capturados foram enforcados em palmeiras — embora alguns tenham se convertido ao Islã para se salvar.


Sevilha foi deixada em ruínas, com o seu povo traumatizado. Neste sentido, Abd al-Rahman II ordenou que um estaleiro fosse construído, bem como uma nova frota para proteger as abordagens pelo rio Guadalquivir, o que dissuadiu com sucesso os futuros ataques.


No entanto, parece que os escandinavos quiseram fazer a paz, já que um ano depois, em 845 d.C., eles deram uma embaixada a Abd-al-Rahman, que respondeu nomeando seu famoso poeta da corte Al-Ghazal, a "Gazela", como o embaixador na corte do Rei Harek da Dinamarca.


Pilhagem e saque

A Espanha não via o último nórdico, já que os ataques continuaram até o final da Era Viking. O historiador de Córdoba do Século XI, Ibn Hayyan, forneceu as primeiras evidências de ataques vikings nas décadas de 960 e 970, principalmente à Galícia, al-Andalus e a Lisboa. Algumas décadas depois, cartas galegas descreveram a destruição de mosteiros pelos invasores, e uma epístola datada de 996 citou uma antiga fortaleza nórdica, que servia como um marco.


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Segundo o historiador marroquino Ibn Idhari, outro ataque a Lisboa com 28 navios em 966 foi derrotado, assim como pequenas incursões em torno de Córdoba nos anos 970. A Galícia continuou a ser atormentada pelos vikings até o Século XI, e Santiago de Compostela foi alvo frequente dos invasores em seu caminho às cruzadas na Terra Santa. Por três séculos, o reino muçulmano de al-Andalus foi ameaçado pelos nórdicos, os quais não iam para conquistar, mas para pilhar.


Hoje, essa violência e terror ancestrais geraram uma aliança improvável entre a Galícia e a Dinamarca. Quando o conselho municipal de Catoira se encarregou de organizar seu festival viking em 1991, um vínculo internacional foi criado pela geminação de Catoira com a cidade dinamarquesa de Frederikssund, no leste da Dinamarca, famosa por seus jogos vikings anuais. A aliança é uma prova do crescente reconhecimento e interesse internacional pela presença viking na Península Ibérica.


FONTE: The Conversation

DRAYSON, Elizabeth. Spain’s little-known Viking history is being uncovered. The Conversation. Boston, 09 de ago. de 2021. Disponível em: <https://theconversation.com/spains-little-known-viking-history-is-being-uncovered-165828>. Acesso em: 16 de ago. de 2021. (Livremente traduzido pela Livros Vikings)


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